Por Clarice Binda — DF
Por Clarice Binda — DF
Recentemente, o IBGE divulgou que a renda média dos brasileiros atingiu R$ 3.367 em 2025, marcando o maior valor da série histórica da PNAD Contínua e um crescimento real de 5,4%. Contudo, no mesmo período, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontou que o endividamento das famílias brasileiras também alcançou um patamar recorde, atingindo 80,9%. Esses dois indicadores simultâneos geram um questionamento central: a quem esse crescimento realmente beneficia?
O crescimento desigual
Os números revelam uma disparidade profunda, que não é casual, mas estrutural. Enquanto a média salarial é de R$ 3.367, existe uma divisão clara por raça e gênero: pessoas brancas recebem, em média, R$ 4.577, enquanto pretos recebem R$ 2.657 e pardos R$ 2.755. Conforme o relatório Desigualdade S.A., da Oxfam, essa distância salarial entre negros e brancos supera 70%.
No campo do gênero, homens possuem rendimento médio de R$ 3.921, comparado aos R$ 3.085 das mulheres. Essa diferença é agravada pelas interrupções na trajetória profissional devido ao trabalho de cuidado, que recai majoritariamente sobre as mulheres. Quando se cruzam raça e gênero, o impacto é ainda mais grave: mulheres negras recebem apenas 60,71% da renda de homens brancos, evidenciando um mercado de trabalho desenhado historicamente para excluir determinados grupos.
Quem mais se endivida — e por quê
Existe um paradoxo na economia atual: mesmo para quem teve aumento de renda, a saúde financeira não melhorou necessariamente. As mulheres são as que mais carregam o fardo do endividamento, pois possuem menos renda disponível para cobrir despesas básicas. A lógica é perversa: com menos salário, mais crédito para fechar as contas acaba se tornando a única saída.
Para as mulheres negras e mães solo, o cenário é crítico. Muitas são chefes de família e, apesar de serem a base do sustento, ganham significativamente menos que os homens: mulheres chefes de família frequentemente recorrem a modalidades de crédito mais caras por terem pedidos negados no sistema bancário tradicional.
Além disso, existe uma economia invisível que sustenta o Brasil: o trabalho de cuidado não remunerado. As mulheres dedicam quase o dobro de horas que os homens a tarefas domésticas e cuidados familiares. Como essas atividades de cuidado não geram renda, elas não aparecem no PIB, embora sejam essenciais para a sociedade. O resultado é que as mulheres trabalham mais, ganham menos e sofrem um maior impacto do endividamento.
Cresceu a renda. Cresceu a dívida
O endividamento é mais severo entre as famílias com renda de até três salários mínimos, onde a inadimplência é alta. O motivo para o paradoxo de que renda sobe, dívida também sobe, está no custo do crédito, que, embora mais disponível, tornou-se mais oneroso.
Embora o aumento da renda média seja uma notícia positiva — com destaque para o ganho real de 78,7% entre os 10% mais vulneráveis nos últimos anos —, a concentração de riqueza permanece alarmante. Os 10% mais ricos detêm uma fatia da renda superior à dos 70% mais pobres. Somando-se a isso, a riqueza dos bilionários brasileiros cresceu de forma acelerada, enquanto a base da pirâmide sofre com a inflação e a necessidade de crédito.
Visão Geral
O cenário de 2025 mostra um país onde o crescimento maior no topo da pirâmide convive com o recorde de dívidas das famílias. A persistência das desigualdades de gênero e raça, aliada à falta de reconhecimento do trabalho de cuidado, mantém o Brasil em um ciclo onde o desenvolvimento econômico ainda não é capaz de garantir estabilidade financeira para a maioria da população.
Créditos: Misto Brasil




















