A crise climática impulsiona o debate eleitoral de 2026, confrontando modelos econômicos e exigindo soluções urgentes para um futuro sustentável.
A urgência imposta pela crise climática transformou o cenário político brasileiro, colocando a justiça climática no centro do debate para as eleições de 2026. O que antes era uma questão ambiental isolada, agora se configura como uma disputa acirrada sobre o modelo econômico, a soberania nacional e o futuro dos vastos territórios brasileiros. Candidatos e eleitores se deparam com a necessidade premente de respostas concretas para os eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, a proteção de comunidades vulnerabilizadas, a viabilização de uma transição energética justa e a reestruturação do sistema agroalimentar.
O cerne da discussão reside em um dilema fundamental: como conciliar a luta contra a emergência climática com um modelo de crescimento econômico intrinsecamente ligado à expansão minerária, à dependência de combustíveis fósseis e a cadeias produtivas que concentram riqueza? A pressão por soluções eficazes é crescente, e a sociedade espera que as plataformas políticas ofereçam caminhos viáveis e sustentáveis para enfrentar um desafio que afeta a todos.
Desastres Naturais em Ascensão: Um Alerta para o Futuro
Os dados alarmantes do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) em seu relatório de 2025 evidenciam a gravidade da situação. Em 2024, o Brasil registrou um número recorde de 3.620 alertas de desastres naturais, o maior desde o início da série histórica em 2011. Foram 1.690 ocorrências concretas, com uma predominância esmagadora de desastres de origem hidrológica, como enchentes e enxurradas, representando 68% do total. Os 32% restantes foram de origem geológica, como deslizamentos de terra, expondo a fragilidade de diversas regiões do país.
Minas Gerais: O Epicentro do Debate Climático e Minerário
Em Minas Gerais, estado com um histórico marcado por tragédias minerárias, conflitos territoriais e intensas disputas por recursos minerais, a discussão sobre justiça climática ganha uma dimensão política ainda mais proeminente. A cientista política e pré-candidata ao Senado pelo estado, Áurea Carolina (PSOL), ressalta a necessidade urgente de romper com o paradigma extrativista que estrutura a economia brasileira. Sua atuação como ex-deputada federal, com participação em importantes investigações sobre desastres minerários e proposição de leis contra a mineração predatória, a coloca como uma voz influente nesse debate.
A agenda da justiça climática articula o enfrentamento à mineração desenfreada, a defesa intransigente de territórios tradicionais, o fomento ao transporte coletivo e a reorganização da produção agrícola. A preocupação reside no risco de que a corrida global por minerais críticos, essenciais para a transição energética, acabe por replicar antigas formas de exploração do Sul Global. Como alerta Áurea Carolina: “Precisamos estar atentos às falsas soluções de transição ecológica vendidas pelo mercado. Precisamos de modelos verdadeiramente alternativos à mineração predatória.”
Um estudo da S&P Global (2025) corrobora essa preocupação, indicando que uma parcela significativa das minas associadas à transição energética global está localizada em áreas de povos indígenas e comunidades tradicionais.
Mineração Verde: Um Novo Rosto para o Extrativismo?
A crescente demanda internacional por minerais críticos e terras raras impulsiona o Brasil a se tornar um alvo prioritário para empresas de mineração. A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta um aumento expressivo na demanda por lítio, grafite, níquel, cobalto e terras raras nas próximas décadas. Em Minas Gerais, projetos ligados à transição energética avançam sobre regiões ricas em lítio, como o Vale do Jequitinhonha, gerando apreensão entre os moradores quanto aos impactos ambientais e sociais.
A chamada “economia verde”, sob a ótica de muitos pesquisadores e movimentos sociais, pode estar apenas mascarando práticas de exploração sob um verniz de sustentabilidade, configurando um “colonialismo verde”.
A deputada federal Duda Salabert (PSOL) questiona a priorização de modelos como o carro elétrico sem a resolução de questões básicas, como a infraestrutura de transporte coletivo e a reciclagem de materiais.
“Como nós vamos pensar em transição energética no Brasil se questões básicas não foram resolvidas? A mineração urbana quase não existe aqui, e as cidades estão cheias de minerais críticos. Você vai ao Japão, quase 100% dos carros são reciclados. Aqui estamos cheios de cemitérios de carros. Por que vamos discutir carro elétrico sem políticas de fomento ao transporte coletivo? Há um fetiche pelo transporte individual, mas o transporte coletivo ainda é um caos”, argumenta Salabert.
Transição Agroalimentar: Rumo à Soberania e Sustentabilidade
O agronegócio empresarial, assim como a mineração, exerce considerável influência sobre as leis ambientais brasileiras, muitas vezes em detrimento da sustentabilidade. As emissões de gases de efeito estufa no Brasil, com grande participação do desmatamento e da agropecuária, mantêm o país entre os maiores emissores globais. O professor Ricardo Abramovay, da USP, critica o atual padrão agrícola brasileiro, baseado em monoculturas e na dependência de insumos químicos.
Para Abramovay, o modelo da Revolução Verde está saturado, resultando em solos degradados e aumento dos custos de produção. Ele defende a soberania alimentar como a nova palavra de ordem.
“Já produzimos alimentos o suficiente. A palavra de ordem, hoje, é soberania alimentar,” enfatiza. Ele propõe uma reorganização da política agrícola em torno da regeneração ambiental e da diversificação produtiva.
Território, Raça e Resistência: A Luta por Justiça Climática e Racial
A disputa por territórios é um componente central na luta pela justiça climática. O caso da Serra do Curral, em Belo Horizonte, onde a Justiça Federal suspendeu licenças de mineração após ação de um quilombo, exemplifica a intersecção entre preservação ambiental e direitos territoriais. Makota Kidoialê, líder do quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, destaca a importância ancestral de sua relação com a mata.
O dossiê Reparação do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) aponta que povos quilombolas, indígenas e comunidades tradicionais possuem conhecimentos valiosos para a mitigação e adaptação climática. O documento também denuncia que pessoas negras, frequentemente empurradas para territórios vulneráveis, são as mais afetadas pela crise climática, evidenciando a necessidade de justiça racial como parte indissociável da justiça climática.
Diante deste cenário, as próximas eleições se apresentam como um momento crucial para definir os rumos do desenvolvimento no Brasil. A urgência da crise climática exige um novo paradigma, que priorize a sustentabilidade, a equidade e o respeito aos territó






















