O gás natural para a indústria brasileira teve um aumento de 16,2% no primeiro semestre de 2026, revelando um cenário preocupante para o setor de energia limpa e sustentável, mesmo com a produção nacional atingindo patamares recordes.
A indústria brasileira se deparou com uma reviravolta nos custos do gás natural. Após um período de declínio em 2025, as tarifas dispararam no primeiro semestre de 2026, gerando preocupação entre os consumidores e analistas do mercado de energia. Essa elevação contrasta diretamente com o crescimento expressivo da produção nacional, levantando questionamentos sobre a eficácia das atuais políticas públicas para o setor.
O Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep), vinculado à Federação Única dos Petroleiros (FUP), foi quem apresentou esses dados, apontando uma inversão da tendência de preços. O instituto destaca que a situação expõe fragilidades nas propostas de desconcentração de volumes de gás, conhecidas como gas release, que prometiam um cenário diferente para o mercado.
Disparada nos Preços e a Contradição da Produção
Conforme o boletim do Ineep, a tarifa média do gás natural no mercado cativo industrial, considerando um consumo de 200 mil m³ por dia nas principais concessionárias estaduais, havia recuado 3,9% entre o segundo e o quarto trimestres de 2025, fechando o ano em R$ 2,97 por m³. Contudo, no primeiro trimestre de 2026, houve um salto de 16,5%, atingindo R$ 3,46 por m³. A escalada continuou no trimestre seguinte, com mais 3,8% de alta, chegando a R$ 3,59 por m³ de gás.
Na comparação anual, entre o segundo trimestre de 2025 e 2026, o aumento acumulado foi de expressivos 16,2%. Essa disparada nos preços ocorreu em paralelo a um recorde histórico na produção nacional de gás natural, que alcançou 210,04 milhões de m³ por dia no segundo trimestre de 2026, um crescimento de 20,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O Impacto nas Distribuidoras e Consumidores
A análise do Ineep revela que as altas nas tarifas não foram uniformes. As redes da Comgás registraram o maior aumento anual, com impressionantes 69,8%. Em seguida, Algás e Bahiagás viram suas tarifas encarecerem em 45,5% e 44,2%, respectivamente. Apenas as concessionárias Ceg e Ceg-Rio apresentaram alguma redução de tarifa no período.
Além das tarifas, as margens de lucro das distribuidoras de gás também se expandiram, com destaque para Algás (+46,3%), ESGás (+56,7%) e Naturgy (+54,4%). Essas margens são calculadas levando em conta também os consumidores livres, que, embora não usem a molécula das distribuidoras, contribuem com a Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição (Tusd). O instituto atribui parte do encarecimento à elevação das referências internacionais do petróleo, influenciadas por conflitos no Oriente Médio.
Críticas à Política de Desconcentração da Oferta
A despeito do aumento da produção interna, o Ineep questiona a eficácia da política de desconcentração da oferta, ou gas release, em promover a queda dos preços e a expansão da malha de gasodutos.
O instituto ressalta que a proposta de desconcentração da oferta, conhecida como gas release, falha em seu objetivo de baratear o insumo e de promover a interiorização da rede de distribuição.
A entidade enfatiza que a política atual não tem impulsionado a infraestrutura necessária para reduzir os altos índices de reinjeção de gás, um ponto crucial para a eficiência do setor.
Sugestões para o Futuro do Setor Energético
Diante desse cenário, o Ineep propõe uma série de políticas públicas para o período de 2027 a 2031, visando aprimorar o setor de óleo e gás. O documento do instituto prioriza a maior participação e coordenação estatal, sugere a substituição das referências internacionais de preços para o gás e, de forma contundente, a revogação da Nova Lei do Gás, buscando um modelo que melhor atenda aos interesses nacionais e à competitividade da indústria.
O aumento dos custos do gás natural para a indústria, mesmo em um período de recorde de produção, acende um alerta sobre a necessidade de reavaliar as estratégias energéticas do país. As propostas do Ineep abrem um caminho para um debate fundamental sobre a coordenação do setor de óleo e gás, a regulação de preços e o papel do Estado, impactando diretamente a capacidade de investimento e a competitividade do setor industrial. Os próximos anos serão decisivos para definir o rumo das políticas de energia e o futuro da energia limpa e sustentável no Brasil.
















