Especialistas reunidos no Brazil Windpower 2026 apontam que a expansão da energia eólica no Brasil esbarra em gargalos de transmissão, sinais de preço e licenciamento acústico.
O avanço da matriz limpa no Brasil enfrenta obstáculos estruturais que exigem urgência na articulação entre governo, órgãos reguladores e agentes privados. Durante o segundo dia do Brazil Windpower 2026, sediado no São Paulo Expo, especialistas do setor elétrico convergiram na avaliação de que a capacidade de geração cresceu em ritmo superior à infraestrutura de escoamento. Esse descompasso gera apreensão quanto à capacidade de integrar o volume gerado às redes de distribuição e atender à crescente demanda industrial.
Além da pressão sobre as linhas de transmissão, o evento colocou em pauta a necessidade de maior previsibilidade regulatória para destravar novos aportes financeiros. A chegada de cargas intensivas, a exemplo de data centers voltados para inteligência artificial, e a eletrificação de setores produtivos tornaram o cenário ainda mais complexo. O desafio consiste em harmonizar a expansão física com diretrizes econômicas claras e critérios socioambientais eficientes para as comunidades do entorno.
Transmissão de energia e sinais de mercado
A discrepância entre o forte salto na capacidade instalada de fontes renováveis e a lentidão na ampliação das redes de escoamento tornou-se o principal foco das discussões. Dados revelados no evento indicam que a oferta limpa cresceu 40% em um intervalo de seis anos, elevando consideravelmente o estresse sobre o Sistema Interligado Nacional (SIN).
Para Glauco Freitas, executivo da Hitachi, o país dispõe de uma matriz altamente sustentável, mas peca na logística de entrega:
Hoje, temos uma matriz energética majoritariamente renovável, que cresceu 40% em seis anos. No entanto, existe uma grande lacuna: ainda não é possível garantir que a energia, barata, abundante e renovável, chegue aonde é necessária. A transmissão e a eletrificação são os principais viabilizadores da transição energética.
A urgência de estabelecer diretrizes econômicas precisas para orientar a localização de novas plantas geradoras também ganhou destaque. Rodrigo Borges, representante da Aurora Research, enfatizou a importância de modernizar o planejamento:
Os investimentos em infraestrutura têm papel fundamental na orientação e na expansão do setor. É necessário planejamento, considerando o papel da transmissão, e trazer novas tecnologias para o Brasil, além de estabelecer um sinal econômico mais claro que reduza os custos e aproxime a demanda dos locais de geração.
Na visão de Thiago Ivanoviski, técnico da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o reforço da rede elétrica ultrapassa a esfera técnica, configurando-se como pilar essencial para a soberania nacional e a estabilidade de longo prazo.
Desafios regulatórios e demandas industriais
A corrida pela eletrificação da economia e a instalação de centros tecnológicos de grande porte impõem um ritmo que o marco regulatório atual muitas vezes não acompanha. Elbia Gannoum, dirigente da ABEEólica, ressaltou que a transição precisa ser tratada sob a ótica da segurança estratégica:
Não basta o mundo saber que o planeta está aquecendo e passando por mudanças climáticas, pois a humanidade só se move por questões econômicas, principalmente os governos e os governantes. Não se trata mais apenas de clima, mas também de segurança e soberania energética.
Do ponto de vista tecnológico, Vitor Caram, da ODATA, frisou que o grande obstáculo reside na capacidade de unir a solidez técnica do setor elétrico brasileiro à agilidade que a chegada de novas indústrias exige.
Licenciamento acústico e o diálogo comunitário
No âmbito socioambiental, o debate sobre o impacto sonoro dos aerogeradores apontou falhas na aplicação de regras genéricas de distanciamento. Segundo especialistas como Jarbas Amaro, da Auren, as condições de relevo e vento tornam inviável a adoção de raios fixos de afastamento, exigindo análises individualizadas para cada parque eólico.
O engajamento das populações locais também foi colocado como condição determinante para a viabilidade dos projetos. Representantes de órgãos ambientais estaduais, como Adroilzo Fonseca e José Anchieta, reforçaram que a aceitação social e a transparência no licenciamento são ferramentas indispensáveis para evitar conflitos e assegurar o sucesso duradouro dos empreendimentos renováveis.
Apesar da ausência de novas normativas oficiais ou cronogramas decretados durante o Brazil Windpower 2026, o fórum consolidou o diagnóstico de que o futuro da geração eólica no Brasil dependerá diretamente de investimentos robustos em transmissão, clareza regulatória e respeito às especificidades locais.












