A corrida por capacidade no Sistema Interligado Nacional coloca gigantes da tecnologia e a indústria de baixo carbono em uma disputa estratégica pela infraestrutura elétrica do país.
A aceleração da transformação digital e a urgência pela transição energética colocaram a malha de transmissão brasileira em um ponto de inflexão crítico. Com uma demanda acumulada que supera os 54 GW em pedidos de conexão, o país vive o embate entre dois vetores de desenvolvimento: a expansão de data centers, fundamentais para a infraestrutura de inteligência artificial, e o desenvolvimento da cadeia de hidrogênio verde (H2V), peça-chave para a descarbonização industrial.
O gargalo se tornou evidente após a primeira Temporada de Acesso, na qual a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) contabilizou números expressivos. De um lado, 26,3 GW requisitados por centros de processamento de dados; de outro, 27,9 GW voltados a projetos de amônia e hidrogênio sustentável. A pressão sobre as subestações do SIN (Sistema Interligado Nacional) forçou o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e os reguladores a repensarem como priorizar o uso da rede em um cenário de escassez de infraestrutura.
O dilema da viabilidade econômica versus valor estratégico
Atualmente, o rito regulatório privilegia critérios financeiros, o que, na prática, favorece empreendimentos com maior capacidade de absorver tarifas elevadas e custos de conexão. Essa lógica impõe uma desvantagem competitiva intrínseca aos projetos de H2V, onde o custo da energia pode representar até 70% das despesas totais. Diferente dos data centers, que operam com margens de lucro elevadas por megawatt consumido, o setor de hidrogênio sofre com a alta sensibilidade ao preço do insumo elétrico.
Sobre essa disparidade, o especialista em energia limpa e transição energética Eric Fernando Boeck Daza aponta um descompasso regulatório:
“A regra atual prioriza quem oferece o maior valor financeiro pela conexão. O problema é que nem sempre quem pode pagar mais é quem gera mais benefícios econômicos, industriais e sociais para o país.”
Novos horizontes para o planejamento elétrico
O debate agora se desloca para a necessidade de critérios que transcendam o aporte financeiro. Especialistas defendem que o governo passe a considerar o impacto regional, a criação de cadeias produtivas — como o aço verde e fertilizantes — e a capacidade de geração própria ou o uso de sistemas de armazenamento por baterias (BESS) para mitigar a pressão sobre a rede.
Quanto à necessidade de uma visão holística para o desenvolvimento, Eric Fernando Boeck Daza reforça que a escolha de quem acessa o sistema transcende o setor elétrico:
“O Brasil precisa avaliar não apenas quem paga mais pela conexão, mas também quem agrega mais valor à economia, gera cadeias produtivas, empregos e desenvolvimento regional.”
A resolução deste impasse será, em última análise, um teste para a estratégia brasileira de reindustrialização sustentável. Com a infraestrutura física atuando como um limitador, a forma como o país gerenciará a fila de acesso à rede ditará quais projetos sairão do papel e qual será o perfil da matriz produtiva nacional nas próximas décadas. O cenário exige, portanto, que a regulação seja tão dinâmica quanto a tecnologia que busca conectar.





















