O financiamento climático global superou metas estabelecidas, mas esbarra em um abismo: enquanto nações mais ricas comemoram números recordes, os países mais vulneráveis enfrentam escassez de recursos e dívidas crescentes.
A OCDE divulgou recentemente dados que indicam um fluxo de US$ 136,7 bilhões em apoio climático a nações em desenvolvimento ao longo de 2024. O montante, que supera o compromisso de US$ 100 bilhões anuais, é celebrado por autoridades internacionais como um sinal de comprometimento com a descarbonização global. No entanto, uma análise detalhada revela que essa conta esconde disparidades significativas e obstáculos financeiros severos para as economias menos favorecidas.
O otimismo oficial contraste com a realidade sentida na ponta, onde a ajuda chega de forma fragmentada. O próprio secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann, reforçou que o objetivo foi atingido pelo terceiro ano consecutivo, consolidando o esforço dos países desenvolvidos. Contudo, especialistas alertam que a qualidade desse suporte é questionável.
“A meta de US$ 100 bilhões foi superada pelo terceiro ano consecutivo em 2024, demonstrando um claro compromisso em apoiar as economias em desenvolvimento para que se adaptem e mitiguem as mudanças climáticas.”
O gargalo do custo de capital
O grande problema reside na estrutura desses recursos. Grande parte do volume contabilizado compõe-se de empréstimos, que elevam o endividamento de nações que já sofrem com pouco espaço fiscal. Um levantamento do CCSI aponta que a escassez de dinheiro não é o único vilão; o alto custo do capital em mercados emergentes, que pode ser até cinco vezes maior do que em nações ricas, inviabiliza projetos sustentáveis.
Na prática, isso encarece drasticamente tecnologias como a energia solar. Enquanto o mercado global reduz o custo da energia limpa, países africanos, por exemplo, lidam com taxas de juros que elevam o preço final da eletricidade renovável a níveis proibitivos. Essa barreira financeira restringe a capacidade de investimento inclusive de grandes instituições financeiras ocidentais.
Desafios para as metas de 2035
O cenário futuro para o financiamento climático é incerto. Embora a COP29 tenha sinalizado a necessidade de elevar o apoio para US$ 300 bilhões anuais até 2035 — com uma meta aspiracional de US$ 1,3 trilhão —, os conflitos geopolíticos e a volatilidade do mercado de energia estão forçando governos a repriorizar seus orçamentos, desviando verbas para defesa e subsídios a combustíveis fósseis.
A desigualdade torna-se evidente ao observar o destino dos fundos: o suporte aos países de baixa renda, que atingiu US$ 9,6 bilhões em 2024, ainda não recuperou o patamar registrado em 2022. Enquanto o financiamento para mitigação avança, impulsionado por BMDs, a adaptação climática segue em ritmo lento, deixando as populações mais vulneráveis desprotegidas contra os impactos imediatos do aquecimento global.





















