O setor de energia no Brasil enfrenta um desafio crescente: enquanto o desmatamento recua, o consumo de diesel mantém as emissões do segmento em trajetória de alta constante.
O cenário de descarbonização no Brasil apresenta um contraste nítido entre a preservação ambiental e a matriz energética. Dados recentes do Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa), braço do Observatório do Clima, revelam que as emissões do setor de energia subiram 1,2% em 2025, atingindo 427 milhões de toneladas de CO2e. O principal motor dessa elevação foi o transporte rodoviário, impulsionado pelo consumo persistente de combustíveis fósseis.
Apesar da redução expressiva na devastação dos biomas — que historicamente representa a maior fatia das emissões brasileiras —, o setor de energia tem ganhado peso proporcional no balanço nacional de gases de efeito estufa. A participação energética subiu de 16% para 21% entre 2023 e 2025, evidenciando que a dependência de hidrocarbonetos para o escoamento de cargas e mobilidade urbana permanece como um dos principais gargalos para o cumprimento integral das metas climáticas do país.
O domínio do diesel nos transportes
O consumo de diesel cresceu 3% no último ano, consolidando-se como o vilão das estatísticas do setor de transportes. Embora o uso de biocombustíveis, como o etanol, tenha registrado alta, a expansão da frota nacional neutralizou os potenciais ganhos ambientais. O transporte de carga, especificamente, foi responsável por 123 MtCO2e, um indicador que reflete a forte atividade logística e o modelo de transporte brasileiro.
A tendência para os próximos anos é de manutenção desse ritmo. Relatórios da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) apontam que a demanda por diesel deve continuar em ascensão até 2027, estimulada por safras recordes e pela dinâmica econômica. A consultora Ingrid Graces, do Iema, reforça a gravidade do cenário ao destacar a escalada contínua dos registros.
“As emissões dos transportes seguem batendo recorde histórico. Tudo que importa no setor aumentou”, afirmou a especialista durante a apresentação dos dados.
Perspectivas e o compromisso climático
Embora o Brasil tenha chegado muito perto de cumprir sua NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) para 2025, a lacuna de 85 milhões de toneladas de CO2e reflete a necessidade de mudanças mais profundas na política de matrizes energéticas. Por outro lado, a trajetória de redução no desmatamento na Amazônia e no Cerrado sinaliza que o país pode atingir metas de emissões líquidas negativas nos próximos ciclos, caso a tendência se confirme.
No âmbito global, a situação é mais crítica. Relatórios da ONU apontam que o mundo está em uma corrida contra o tempo para evitar que a temperatura média do planeta ultrapasse o limite de 1,5ºC. Para especialistas, a solução exige uma transição acelerada para fontes renováveis e uma diminuição drástica no uso de combustíveis fósseis, um desafio que exige não apenas tecnologia, mas vontade política imediata dos países integrantes do G20 e além.












