Cobertura solar em canais da Califórnia reduz perda de água em 70%, impulsionando viabilidade do Projeto Nexus.
A Califórnia, um dos estados mais engajados na busca por soluções sustentáveis, está revelando o potencial multifacetado da energia solar. Uma iniciativa pioneira no Vale Central, o Projeto Nexus, tem demonstrado que a instalação de painéis fotovoltaicos sobre os canais de irrigação oferece vantagens significativas que vão além da simples geração elétrica, impactando diretamente a conservação hídrica e a manutenção da infraestrutura.
Os primeiros resultados deste projeto inovador indicam que a sombra proporcionada pelas estruturas solares é capaz de diminuir a evaporação da água em até 70%. Além disso, um benefício inesperado foi a redução de até 85% no crescimento de ervas daninhas e algas nos canais. Embora o foco inicial do programa fosse a produção de energia limpa, esses ganhos secundários podem ser o elemento-chave para a sustentabilidade econômica da tecnologia, que possui custos de implementação mais elevados que as usinas solares convencionais em solo.
O Projeto Nexus e o Potencial da Califórnia
O Projeto Nexus visa transformar os cerca de 6.400 quilômetros de canais abertos de irrigação da Califórnia em uma vasta rede de produção de energia solar. Financiado com US$ 20 milhões em recursos estaduais, a colaboração entre a Universidade da Califórnia, Merced, o Distrito de Irrigação de Turlock e a Solar AquaGrid instalou coberturas solares em dois trechos de canais no Sul de Modesto. Esses segmentos, que somam uma área equivalente a um campo e meio de futebol, já geram 1,6 megawatts de eletricidade.
Um estudo de 2021 da UC Merced projetou que a cobertura integral dos principais canais do estado poderia resultar em 13 gigawatts de capacidade instalada. Isso representaria quase metade da nova energia solar necessária para o estado atingir suas metas de energia renovável até 2030, ao mesmo tempo em que pouparia aproximadamente 63 bilhões de galões de água anualmente. Esse volume seria suficiente para abastecer 2 milhões de pessoas ou irrigar 20 mil hectares de áreas agrícolas, evidenciando o gigantesco potencial dessa sinergia entre água e sol.
Desafios e Perspectivas para a Expansão
Apesar dos resultados promissores, a expansão em larga escala do modelo não está isenta de desafios. A pesquisadora principal Brandi McKuin aponta que os canais variam significativamente em formato, condições e localização, e os custos de construção ainda superam os dos sistemas fotovoltaicos instalados em áreas desérticas.
“Provavelmente é irrealista presumir que conseguiremos cobrir todos os 6.400 quilômetros de canais da Califórnia.”
No entanto, simulações mostram que cobrir mesmo uma fração da rede de canais já geraria uma quantidade considerável de energia. A viabilidade econômica futura dependerá de um balanço entre a geração de eletricidade, a conservação de água, a economia de uso de solo e a redução de custos com manutenção de vegetação indesejada. Um relatório da UC Merced, aguardado nos próximos meses, será fundamental para as decisões de investimento do Distrito de Irrigação de Turlock e para o Departamento de Recursos Hídricos da Califórnia, que avalia a aplicação da tecnologia no Projeto Estadual de Água.
Experiências Globais e o Futuro no Oeste Americano
A Califórnia não é pioneira nesta abordagem. O estado de Gujarat, na Índia, implementou projetos de canais solares há mais de uma década. Mais recentemente, em 2024, a Comunidade Indígena do Rio Gila, no Arizona, instalou um sistema similar, que já está operando 25% acima do esperado, gerando 1,5 megawatts. A água que passa sob os painéis atua como um sistema de resfriamento natural, elevando a eficiência energética. A temperatura da água nos trechos sombreados também registrou uma queda, sem ocorrência de algas.
David DeJong, diretor do projeto de irrigação no Arizona, descreve o potencial da tecnologia para o oeste dos Estados Unidos como uma “mudança de paradigma”. Para Roger Bales, professor emérito da UC Merced, a rede californiana pode gerar até 1 gigawatt de energia solar na próxima década, desde que os primeiros 160 quilômetros sejam construídos. A estratégia inicial, segundo Jordan Harris da Solar AquaGrid, é priorizar locais estratégicos, como próximos a estações de bombeamento e pontos de recarga de veículos elétricos, otimizando a integração à rede elétrica. Contudo, McKuin enfatiza a necessidade de mais pesquisas para embasar uma expansão em larga escala, garantindo que o avanço da energia renovável e a segurança hídrica caminhem juntos.



















