Passo Fundo lidera a produção de biocombustíveis no país, mas o mercado externo prioriza a soja em grão, mantendo o refino voltado quase inteiramente para abastecer o mercado nacional.
A cidade de Passo Fundo, localizada no estado do Rio Grande do Sul, consolidou-se como um polo agropecuário de peso e abriga a sede da Be8, reconhecida como a maior empresa produtora de biodiesel do país.
No entanto, um paradoxo chama a atenção no comércio exterior: enquanto o município movimenta bilhões em divisas internacionais, o biocombustível responde por uma parcela quase irrelevante das vendas externas, dividindo espaço com o domínio absoluto da soja em grão.
Conforme dados consolidados pelo Comex Stat, o município registrou um faturamento de US$ 1,73 bilhão com exportações.
Desse total expressivo, a pauta comercial demonstra uma forte concentração no setor primário, evidenciando que a maior parte da produção industrial voltada à energia limpa da região tem como destino principal o abastecimento interno brasileiro.
A supremacia da soja e o papel secundário do biocombustível
O cenário das transações internacionais em Passo Fundo é liderado com folga pela comercialização de commodities agrícolas in natura.
A soja em grão representou sozinha cerca de 75% de toda a receita obtida com o mercado externo, somando US$ 1,30 bilhão.
Outros cultivos tradicionais, como o trigo e o milho, também compõem a maior parte da pauta de embarques do município gaúcho, deixando margem mínima para produtos de maior valor agregado do setor sucroenergético e de óleos vegetais.
Na contramão do volume exportado em grãos, o biodiesel representou apenas 0,19% do total comercializado pela cidade com o exterior.
O volume inexpressivo de vendas internacionais do combustível renovável contrasta com a gigantesca capacidade operacional instalada na planta local da Be8, regulada pelas diretrizes da ANP.
O mercado interno como destino principal da energia verde
O principal motivo para a baixa exportação do biocombustível reside na forte demanda garantida pelo próprio mercado nacional.
Com a implementação do programa federal que elevou gradualmente a proporção obrigatória de biodiesel misturado ao combustível fóssil comercializado nos postos, a produção das usinas passou a ser fortemente absorvida pela frota de transportes do país, impulsionada pelas diretrizes do CNPE.
A produção nacional de biocombustíveis está fortemente ancorada na demanda interna, dependendo diretamente dos mandatos governamentais de mistura para garantir sua expansão contínua.
Além disso, dados estatísticos revelam curiosidades logísticas e industriais, como o fato de a glicerina bruta — um subproduto gerado durante o processo de fabricação do biocombustível — ter gerado uma receita de exportação significativamente superior à do próprio combustível refinado no mesmo período.
Impacto na balança comercial e perspectivas futuras
O desempenho geral das exportações do município sofreu uma retração expressiva, recuando 16% em comparação ao ciclo anterior.
O principal fator para essa queda foi a diminuição no volume embarcado de soja em grão, demonstrando a forte vulnerabilidade da economia local às oscilações da safra agrícola e à dependência de poucas commodities.
A retomada do protagonismo econômico de Passo Fundo no ranking de exportações do estado do Rio Grande do Sul dependerá diretamente do comportamento das próximas colheitas e da produtividade do campo.
Enquanto o setor de energia sustentável brasileiro segue focado em atender às metas de descarbonização do transporte rodoviário interno, o mercado externo do município continuará ditado pelo ritmo da agricultura tradicional.














