A Conferência das Partes (COP17), realizada na Mongólia, concluiu doze dias de intensas negociações com um chamado urgente pela viabilização de investimentos práticos e tecnologias contra a desertificação global.
Após quase duas semanas de diálogos em Ulaanbaatar, a COP17 — encontro focado na Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) — encerrou seus trabalhos com o desafio de transpor metas diplomáticas em ações concretas. O evento reuniu representantes de 197 partes, incluindo a União Europeia, em um cenário global onde o multilateralismo enfrenta fortes resistências das grandes potências.
O debate central desta edição foi a necessidade de superar a fase de declarações de intenções. Para as autoridades presentes, o obstáculo atual não é a ausência de metas, mas a escassez de recursos financeiros e suporte institucional. O primeiro-ministro da Mongólia, Nyam-Osoryn Uchral, sintetizou o tom das discussões durante o encerramento do evento:
“Hoje, chegou a hora de nos fazermos uma pergunta ousada e sincera: falamos muito e fizemos muitas declarações, mas conseguimos transformar nossas palavras em ações? O que precisamos com mais urgência são recursos, financiamento, tecnologia e ambiente institucional para transformar esses compromissos em resultados tangíveis.”
O impacto da degradação do solo na segurança global
A urgência do tema não é arbitrária. Atualmente, cerca de 40% das terras aráveis do planeta enfrentam algum estágio de degradação, um processo que converte solos férteis em áreas áridas e desertificadas. Esse fenômeno impacta diretamente a vida de 3,2 bilhões de pessoas, sendo um motor silencioso para crises migratórias, escassez hídrica e insegurança alimentar.
Especialistas alertam que a sociedade frequentemente falha ao não associar eventos climáticos extremos — como incêndios florestais descontrolados e secas prolongadas — à perda de vitalidade da terra. Ao recuperar o solo, o mundo ganha não apenas segurança alimentar, mas também uma aliada estratégica no combate às mudanças climáticas, já que a superfície terrestre possui uma capacidade de estocagem de carbono três vezes superior à da atmosfera.
Sobre a complexidade do problema, Yasmine Fouadh, secretária executiva da UNCCD, destacou a gravidade da situação:
“A desertificação pode ser simplesmente uma crise alimentar, porque uma vez que sua terra esteja degradada, você não poderá plantar e terá problemas de segurança alimentar e hídrica, além de migração e deslocamento. As pessoas não têm a opção de deixar suas terras, mas não têm nada que sustente seu modo de vida e lhes dê resiliência.”
Com o fim das negociações na Mongólia, o grande teste para os próximos anos será a capacidade de mobilização de fundos globais. O sucesso das futuras conferências dependerá de quanto o compromisso com o investimento verde conseguirá, de fato, restaurar a produtividade do solo, que hoje responde pela origem de quase a totalidade dos alimentos e calorias consumidos pela humanidade.











