CCS Brasil exige critérios para financiamento de captura de carbono no Fundo Clima

CCS Brasil exige critérios para financiamento de captura de carbono no Fundo Clima
CCS Brasil exige critérios para financiamento de captura de carbono no Fundo Clima - Foto: Reprodução / Freepik | Pixbay
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CCS Brasil critica limites propostos para financiamento de captura de carbono, defendendo análise individual de projetos no Fundo Clima.

A CCS Brasil, associação que representa o setor de captura, uso e armazenamento de carbono, manifestou veementemente seu desacordo com as sugestões de membros do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), o Conselhão, para impor restrições ao acesso de projetos de CCS (sigla para Captura e Armazenamento de Carbono) aos recursos do Fundo Clima.

Em uma carta aberta, a entidade ressaltou a importância de uma avaliação baseada na efetividade da redução de emissões, em vez de vetos antecipados a tecnologias específicas.

A controvérsia surge após 39 conselheiros encaminharem um documento ao presidente Lula e a outros líderes governamentais, sugerindo que o Fundo Clima não apoie iniciativas de CCUS (Captura, Uso e Armazenamento de Carbono) vinculadas à recuperação avançada de petróleo (conhecida como EOR) ou a projetos que prolonguem a operação de ativos de combustíveis fósseis.

Para esses conselheiros, o apoio público a esta tecnologia deveria ser exclusivo para setores com difícil descarbonização, como as indústrias de cimento e siderurgia, e condicionado à comprovação rigorosa da redução de emissões.

Posicionamento da CCS Brasil: Uma Visão Abrangente

A advogada e fundadora da CCS Brasil, Isabela Morbach, embora concorde com a necessidade de critérios objetivos de integridade ambiental e eficácia climática para o uso de recursos públicos, contesta a fundamentação das propostas do Conselhão.

Para Morbach, as recomendações parecem baseadas em generalizações e podem beneficiar certas tecnologias de descarbonização em detrimento de outras.

O que nos surpreendeu é que a carta direcionada ao Conselhão parece defender um trancamento tecnológico direcionado especificamente a CCS, sem aplicar os mesmos critérios às demais rotas tecnológicas de descarbonização.

A advogada argumenta que essa abordagem criaria uma assimetria na alocação de recursos do Fundo Clima, favorecendo tecnologias que, em muitos casos, compartilham desafios de custo e maturidade tecnológica semelhantes aos da CCS.

Foco no EOR: Uma Falsa Equivalência?

Um dos pontos mais criticados pela CCS Brasil é a ênfase que os membros do Conselhão deram ao uso de CO2 na recuperação avançada de petróleo (EOR). A associação classifica essa abordagem como uma “falsa equivalência”, que confunde uma aplicação específica com o vasto campo das tecnologias de captura e armazenamento de carbono.

A entidade afirma não haver solicitações concretas para financiamento de projetos de EOR no Brasil com verbas do Fundo Clima.

Defendem que cada projeto, independentemente de sua ligação com a produção de petróleo, deve ser avaliado individualmente, considerando seus resultados climáticos, a redução ou remoção líquida de gases de efeito estufa, adicionalidade e permanência do armazenamento.

Além do Petróleo: Versatilidade do CCS

A CCS Brasil enfatiza que a captura e o armazenamento de carbono compreendem um conjunto de tecnologias aplicáveis a diversas fontes de carbono, incluindo emissões industriais, CO2 de origem biogênica e a captura direta do ar.

No contexto brasileiro, destacam o enorme potencial da bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS).

O BECCS possibilita a captura de CO2 biogênico gerado em processos como a produção de etanol e biogás, bem como em setores como papel e celulose, para posterior armazenamento permanente.

A associação pontua que BECCS em produção de etanol, captura de emissões industriais, armazenamento de CO2 da indústria química e DACCS (Captura Direta de Carbono do Ar com Armazenamento) não são equivalentes ao EOR.

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A tecnologia CCS também encontra aplicações nas indústrias química e de fertilizantes, na produção de hidrogênio de baixa emissão e em sistemas de captura direta de CO2 da atmosfera. Assim, a entidade considera restritiva a proposta de concentrar a discussão apenas nos setores de cimento e siderurgia.

Custo e Maturidade Tecnológica: Uma Análise Detalhada

A CCS Brasil refuta a generalização de que a captura de carbono é uma tecnologia cara e imatura. Eles esclarecem que o custo de CCS varia significativamente, dependendo de fatores como a concentração de CO2, o processo industrial, a tecnologia de captura e a escala do projeto.

Apresentar o CCS como “caro” sem um comparativo detalhado com alternativas que desempenhem a mesma função resulta em uma análise incompleta.

A associação traça um paralelo com outras cadeias de valor da transição energética, como hidrogênio de baixa emissão, combustíveis sustentáveis de aviação e eólica offshore, que também enfrentam desafios de custo, escala e infraestrutura.

Regulamentação: Avanços e Desafios

Os conselheiros do CDESS também sugeriram que o governo aguardasse a conclusão das normas da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) antes de liberar financiamentos.

Alertando para a necessidade de regras sobre monitoramento e garantias financeiras para evitar passivos ambientais.

Por outro lado, a CCS Brasil reconhece que a regulamentação complementar está em desenvolvimento, mas contesta a ideia de que o Brasil não possui um arcabouço para a atividade.

A associação cita a Lei 14.993/2024, que conferiu à ANP a competência para autorizar e fiscalizar o armazenamento geológico de CO2, e o Decreto 13.095/2026, que estabelece diretrizes de segurança e monitoramento.

Segundo a entidade, “regulação em construção não é ausência de regulação”, e a ANP já utiliza um modelo experimental para projetos-piloto.

A CCS Brasil defende que o processo de regulamentação complementar e o financiamento de projetos avancem de forma paralela, como ocorre com outras novas cadeias da transição energética.

A posição da CCS Brasil reitera a necessidade de uma abordagem mais matizada e tecnicamente embasada para a política climática do país.

A entidade busca garantir que as decisões sobre o financiamento de tecnologias de descarbonização sejam pautadas pela efetividade e pelo potencial de redução de emissões de gases de efeito estufa, sem preconceitos tecnológicos que possam frear o avanço da energia limpa e da sustentabilidade.

A discussão promete continuar, delineando os próximos passos para a inserção das tecnologias de captura de carbono na matriz energética brasileira.

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