Tarifa dos EUA impacta setor sucroenergético e força ajuste no escoamento do Nordeste

Tarifa dos EUA impacta setor sucroenergético e força ajuste no escoamento do Nordeste
Tarifa dos EUA impacta setor sucroenergético e força ajuste no escoamento do Nordeste - Foto: Reprodução / Freepik | Pixbay
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A imposição de uma tarifa de 25% pelos Estados Unidos sobre o açúcar e o etanol brasileiros redesenha o mapa comercial do setor sucroenergético, impactando duramente o Nordeste.

A recente decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre as importações de açúcar e etanol do Brasil está provocando uma reconfiguração nas estratégias de comercialização do setor. Embora a avaliação inicial da Hedgepoint Global Markets aponte para um impacto agregado limitado na balança comercial brasileira de biocombustíveis e açúcar, a repercussão regional se mostra consideravelmente mais acentuada, em especial para os produtores do Norte e Nordeste do país.

Essa nova barreira comercial desvela uma assimetria preocupante, com consequências distintas para cada uma das principais cadeias. Enquanto o etanol brasileiro vê sua competitividade evaporar no mercado norte-americano, o açúcar, apesar da redução drástica de suas margens de lucro, ainda consegue manter um espaço, amparado por cotas preferenciais preexistentes. A medida expõe a fragilidade estrutural das usinas do Nordeste, historicamente mais dependentes de acordos comerciais vantajosos.

O Redirecionamento do Etanol

No segmento de biocombustíveis, a nova tarifa de 25% praticamente inviabiliza as exportações de etanol carburante brasileiro para os Estados Unidos. Este fluxo, que variava entre 250 mil e 350 mil metros cúbicos anuais, embora modesto no contexto da produção nacional, representava uma importante válvula de escape para o excedente de produção das usinas do Nordeste, especialmente em períodos de safra.

A projeção é que aproximadamente 300 mil metros cúbicos de etanol que antes seguiriam para o mercado americano sejam agora realocados para o consumo interno. O cenário doméstico, contudo, é favorável à absorção desse volume. Fatores como a crescente frota de veículos flex e a elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32% impulsionam a demanda.

Murilo Mello, Head de Açúcar para as Américas da Hedgepoint Global Markets, comenta: “A demanda doméstica por etanol carburante vem crescendo neste ano, impulsionada pelo aumento da frota de veículos e pela ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que passou para 32%. Por isso, esse volume poderá ser absorvido pelo mercado interno sem maiores dificuldades. O impacto será muito mais uma questão de preço do que de oferta, especialmente porque o mercado já opera com preços pressionados por outros fatores. Diante do tamanho do consumo nacional, esses cerca de 300 mil metros cúbicos têm participação pouco representativa.”

A expectativa é de um ajuste nos preços nas regiões produtoras, mas sem desorganização significativa da oferta nacional de combustíveis renováveis.

A Resistência do Açúcar

O panorama para o açúcar é distinto. Os Estados Unidos mantêm um sistema de cotas tarifárias que concede ao Brasil um acesso preferencial. Cerca de 150 mil toneladas anuais são destinadas às usinas do Norte e Nordeste, compensando sua menor competitividade em relação ao Centro-Sul.

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Mesmo com a nova tarifa, a atratividade do mercado americano se mantém, ainda que com rentabilidade reduzida. Isso se deve aos preços internos do açúcar nos Estados Unidos, que permanecem substancialmente mais altos do que as cotações internacionais negociadas na bolsa de Nova York. Dessa forma, apesar da diminuição das margens, a exportação para os Estados Unidos continua sendo mais vantajosa do que outras alternativas internacionais ou o mercado doméstico.

A Exposição do Nordeste

A maior vulnerabilidade do Nordeste às flutuações e barreiras comerciais internacionais é explicada por suas características produtivas. A região enfrenta desafios como relevo mais acidentado, menor nível de mecanização agrícola e produtividade média da cana-de-açúcar inferior à do Centro-Sul, o que resulta em custos de produção mais elevados. No entanto, sua localização geográfica próxima aos portos do Atlântico Norte confere vantagens logísticas cruciais para as exportações destinadas à Europa e aos Estados Unidos, tornando os acordos e regimes tarifários preferenciais vitais para a sustentabilidade econômica das usinas locais.

Novas Oportunidades no Cenário Global

Diante da erosão das margens no mercado americano, os produtores nordestinos estão explorando ativamente a expansão das exportações para a União Europeia. O recente acordo Mercosul-União Europeia abre uma nova cota de aproximadamente 180 mil toneladas de açúcar brasileiro com isenção tarifária. Essa janela de oportunidade é crucial para a diversificação comercial, e a localização estratégica do Nordeste, com sua infraestrutura portuária, pode favorecer a ocupação de uma parcela significativa desse novo espaço de mercado, mitigando parcialmente as perdas americanas.

A análise da Hedgepoint Global Markets conclui que, apesar dos efeitos regionais consideráveis sobre a rentabilidade das usinas nordestinas, as medidas protecionistas dos Estados Unidos não alteram os fundamentos do mercado sucroenergético brasileiro de forma sistêmica. O etanol será absorvido internamente, enquanto as exportações de açúcar continuarão dentro da cota existente, embora com lucros menores. O desafio central para os produtores é a gestão dessas margens reduzidas e a busca incessante por novos mercados preferenciais para diminuir a dependência e a exposição ao crescente protecionismo comercial, mantendo um olho atento a futuras medidas tarifárias que possam surgir.

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