ONS e CCEE pedem cautela em inclusão da resposta da demanda no Dessem

ONS e CCEE pedem cautela em inclusão da resposta da demanda no Dessem
ONS e CCEE pedem cautela em inclusão da resposta da demanda no Dessem - Foto: Reprodução / Freepik | Pixbay
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O ONS e a CCEE recomendam prudência na evolução da representação da Resposta da Demanda no modelo Dessem, alertando para desafios de complexidade computacional e riscos operacionais para o Setor Elétrico.

A otimização da operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) e a formação de preços no mercado de energia são processos complexos e cruciais para a estabilidade do abastecimento brasileiro. Nesse contexto, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) emitiram um alerta importante sobre a inclusão de mecanismos mais abrangentes de Resposta da Demanda no Dessem, ferramenta essencial para a programação diária e para o cálculo do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD).

As instituições manifestaram à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) uma preocupação central: a implementação integral de tais recursos pode elevar substancialmente a complexidade computacional do modelo. Essa elevação traria o risco de frequentes acionamentos de contingências e potenciais atrasos na publicação de dados e resultados, impactando diretamente a previsibilidade e a confiança no setor de energia.

Contexto da Consulta Pública e os Primeiros Alertas

A posição conjunta do ONS e da CCEE foi apresentada como resposta à Consulta Pública nº 36/2023 da Aneel. Essa consulta visava discutir aprimoramentos na Resolução Normativa nº 1.030/2022 e na forma como a Resposta da Demanda é representada nos modelos de otimização eletroenergética.

A Aneel solicitou a análise de 14 contribuições de diversos agentes e associações do setor elétrico. Embora a representação da Resposta da Demanda tenha sido aceita parcialmente, as instituições expressaram forte preocupação. Cinco das 14 manifestações também ecoaram o receio de aumento no tempo de processamento do Dessem, riscos de contingências e atrasos na programação.

Desafios na Representação de Agregadores e do Deslocamento Temporal

Um dos pontos de maior debate reside na representação dos agregadores de carga. A proposta estudada por um grupo de trabalho previa a utilização de unidades fictícias equivalentes a usinas termelétricas para representar as ofertas de redução de consumo.

Contudo, essa abordagem não abordava adequadamente nem os agregadores de carga – empresas que consolidam a redução de consumo de múltiplos usuários – nem o conceito de deslocamento temporal da demanda.

Os agregadores de carga reúnem a capacidade de vários consumidores, muitas vezes dispersos geograficamente. A representação simplificada, que os agrupa em um único ponto da rede, foi questionada por agentes do mercado, que alertam para possíveis distorções nos cálculos de fluxo de potência e na precisão das análises operativas do Dessem.

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O ONS e a CCEE reconheceram a validade dessas preocupações, indicando que uma representação mais detalhada dos agregadores será fundamental para futuras evoluções do modelo. Outra dificuldade identificada é a modelagem do deslocamento temporal, ou seja, situações em que o consumo é apenas transferido de um período para outro, e não efetivamente reduzido.

Impacto Operacional e Caminhos para Otimização

A maior preocupação tangível é o potencial aumento do tempo de processamento do Dessem. A inclusão da Resposta da Demanda demanda a incorporação de restrições semelhantes às usadas para o despacho de usinas térmicas, elevando a complexidade do problema matemático resolvido diariamente.

O tempo de processamento do Dessem é uma questão prioritária, e as instituições estão avaliando alternativas, como a substituição do pacote de otimização CPLEX pelo Gurobi, que tem demonstrado melhor desempenho em testes recentes.

“O tempo de processamento do Dessem é uma preocupação permanente das instituições junto ao Cepel“, destacaram as entidades, sublinhando a necessidade de otimização contínua.

As mudanças no sistema elétrico, como a entrada das termelétricas dos Leilões de Reserva de Capacidade (LRCap) e o acentuado contraste entre períodos de pico e vale de carga, tornam a operação ainda mais desafiadora. Os dados corroboram essa realidade: em 2025, os mecanismos de contingência do Dessem foram acionados 12 vezes, e até março de 2026, já haviam sido 9 vezes, com a publicação dos resultados próxima ao limite em muitas ocasiões.

Próximos Passos para um Futuro Mais Sustentável

Diante desse cenário, o ONS e a CCEE planejam solicitar ao Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) o desenvolvimento de novas funcionalidades. O objetivo é aprimorar a representação da Resposta da Demanda no Dessem e, ao mesmo tempo, garantir a preservação do desempenho computacional do modelo, essencial para a segurança e agilidade da operação.

As entidades também defendem que quaisquer novos desenvolvimentos aguardem a conclusão das discussões regulatórias em curso sobre Resposta da Demanda. Dentre elas, destaca-se a análise da “dupla contabilização”, iniciada pela Portaria MME nº 900/2026 e em debate na Consulta Pública nº 218/2026, que pode redefinir as ofertas de preço e quantidade por parte dos consumidores. Essa abordagem cautelosa busca garantir que as inovações no setor elétrico contribuam efetivamente para uma gestão de energia mais eficiente, robusta e alinhada com os princípios de energia limpa e sustentável para o Brasil.

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