Eventos climáticos de El Niño “muito fortes” elevaram em 7,6% o custo da energia elétrica no Brasil via bandeiras tarifárias, aponta estudo. Alerta para futuro aumento.
A relação entre fenômenos climáticos extremos e o aumento da conta de luz tem sido uma preocupação crescente para consumidores e especialistas no setor de energia. Um recente levantamento do Poder360, com base em dados da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) e da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica), revelou que os períodos de El Niño de intensidade “muito forte” resultaram em um acréscimo significativo nas tarifas. Desde 2015, quando o sistema de bandeiras tarifárias foi implementado, esses meses registraram o maior peso adicional na fatura de energia elétrica.
O estudo aponta que, em média, as bandeiras tarifárias adicionaram 7,6% à tarifa-base residencial de energia elétrica durante os eventos de El Niño “muito forte”. Esse percentual representa um aumento de 62,1% em comparação com os meses sem a influência do fenômeno, quando a média de sobretaxa foi de 4,7%. A análise contextualiza o impacto direto das condições climáticas no custo de vida, especialmente para os lares brasileiros que dependem da energia elétrica.
Impacto das Variações Climáticas na Tarifa
O sistema de bandeiras tarifárias, instituído em janeiro de 2015, visa sinalizar ao consumidor as condições de geração de energia elétrica e os custos envolvidos. A pesquisa detalhou como diferentes intensidades do El Niño influenciam esse custo. Enquanto eventos “muito fortes” e “moderados” resultaram em acréscimos médios de 7,6% e 5,3% respectivamente, curiosamente, os El Niños classificados como “fracos” e “fortes” apresentaram um cenário de tarifas de energia mais brandas, com acréscimos de 3,5% e 2,7%. Já nos períodos sem El Niño, a média foi de 4,7%. Essa variação sugere uma dinâmica complexa entre o fenômeno e a operação do setor elétrico.
Mecanismo de Encarecimento da Energia
A influência do El Niño na conta de luz não é automática, mas ocorre através de uma cadeia de eventos. O fenômeno altera os padrões de chuvas, afetando diretamente o volume de água nos reservatórios das hidrelétricas, a principal fonte de energia elétrica do Brasil. Com a menor disponibilidade hídrica, o setor elétrico é obrigado a acionar usinas térmicas, que operam com combustíveis fósseis e, consequentemente, geram energia a um custo significativamente mais elevado. Esse custo adicional é repassado ao consumidor por meio das bandeiras tarifárias, elevando o valor final da fatura.
A complexidade reside no fato de que o impacto não é uniforme. Diversos fatores, como a localização e o momento das chuvas, o nível inicial dos reservatórios, a demanda nacional por energia, a oferta de outras fontes e as decisões estratégicas do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), modulam o efeito do El Niño nas tarifas de energia. Por isso, eventos de intensidade similar podem desencadear cenários tarifários distintos.
Projeções Climáticas e Desafios para o Setor Elétrico
O futuro próximo aponta para um cenário de atenção. A NOAA informou que as condições de El Niño já estão presentes no Pacífico Equatorial e devem se intensificar durante o inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027. Há uma probabilidade de 63% de o fenômeno atingir uma intensidade “muito forte” entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, potencialmente um dos maiores registros desde 1950.
No contexto brasileiro, essa projeção demanda monitoramento contínuo. Em reunião recente do CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico), foi reportado que as chuvas em maio nas regiões Sudeste/Centro-Oeste, Nordeste e Norte ficaram abaixo da média, com exceção do Sul. Para junho de 2026, as previsões para o volume de água que abastece as hidrelétricas variam entre 67% e 76% da média histórica, o que, no pior cenário, seria o quarto menor patamar em 96 anos. A bandeira tarifária vigente em junho é a amarela, com um acréscimo de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos, refletindo as condições atuais do setor elétrico. O ONS reitera o compromisso em monitorar constantemente a situação hídrica e os reservatórios para otimizar a operação do sistema.
Perspectivas para a Sustentabilidade Energética
O estudo reforça a necessidade de o Brasil investir em uma matriz energética mais resiliente e diversificada. A dependência excessiva das hidrelétricas torna o país vulnerável às flutuações climáticas, como as provocadas pelo El Niño, impactando diretamente a sustentabilidade financeira e ambiental do setor de energia. A busca por fontes de energia limpa e alternativas, aliada a uma gestão eficiente dos recursos hídricos, é fundamental para mitigar o encarecimento da conta de luz e garantir a segurança energética em longo prazo, protegendo o consumidor de futuras variações tarifárias.






















