Reatores nucleares menores enfrentam desafios regulatórios e de escala, apesar do apelo para a energia verde.
O setor de energia nuclear tem visto um renovado interesse, impulsionado pela necessidade de combater a crise climática, pela busca de fontes de energia mais estáveis em cenários de instabilidade geopolítica e pelo crescente consumo energético da inteligência artificial. Nesse contexto, os Pequenos Reatores Modulares (SMRs) emergem como protagonistas, prometendo usinas mais compactas, flexíveis e econômicas em comparação com as instalações nucleares tradicionais de grande porte, cujos custos podem ultrapassar os R$ 150 bilhões.
No entanto, a visão otimista em torno dos SMRs é temperada por especialistas. Matthew van Sickle, da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), alerta que, apesar da forte promoção comercial, a tecnologia dos SMRs ainda está em fase teórica e sua viabilidade em larga escala precisa ser comprovada. Brianna Lazerwitz, também da AIEA, reforça que a escala de produção não é o único fator; a implementação de qualquer nova tecnologia nuclear exige um rigoroso processo regulatório, que pode levar entre 10 a 20 anos para ser concluído, dependendo do país.
Desafios na Adoção Global e Perspectivas para o Futuro
A maior parte dos países interessados em SMRs são nações em desenvolvimento na África e na Ásia. Lazerwitz aconselha cautela, recomendando que operadores iniciantes optem por tecnologias já consolidadas para evitar riscos desnecessários. Embora os SMRs possam acelerar o tempo de construção de usinas em comparação com as plantas convencionais – que demandam até sete anos para serem construídas após cinco anos de desenvolvimento –, a complexidade regulatória permanece um obstáculo significativo.
Apenas Rússia e China operam SMRs atualmente, mas a tecnologia atrai atenção global. O Brasil já demonstrou interesse em colaborações com a Rússia, que propôs o uso de reatores flutuantes na Amazônia. A aceleração do desenvolvimento da inteligência artificial e dos data centers das big techs também tem impulsionado o investimento em SMRs, com a Bloomberg Intelligence prevendo um crescimento de 63% na demanda por novos reatores nos Estados Unidos até 2050, totalizando US$ 350 bilhões. Contudo, a necessidade de padrões de segurança ainda mais elevados, devido aos riscos inerentes à radioatividade, lança dúvidas sobre o otimismo geral.
Impacto da Geopolítica e a Trajetória da Energia Nuclear
O interesse renovado na energia nuclear é alimentado pela necessidade de cumprir metas de redução de emissões de carbono e pela instabilidade geopolítica global, exacerbada por conflitos como os da Ucrânia e do Irã, que afetam o fornecimento de petróleo e gás. Apesar das críticas sobre o manejo de resíduos nucleares e o risco de acidentes, como os de Tchernóbil e Fukushima, a indústria nuclear tem investido em segurança e aprendido com experiências passadas. A AIEA projeta um crescimento expressivo na capacidade nuclear global até 2050, com os SMRs desempenhando um papel crucial nesse aumento.
O Brasil, que atualmente obtém apenas 1,2% de sua eletricidade de suas duas usinas nucleares, estuda a adoção de SMRs. A Eslováquia, por exemplo, busca a adoção de tecnologias SMR e já conta com reatores tradicionais, mas com componentes ocidentais em suas instalações mais modernas. A dependência de combustível nuclear russo, apesar das tensões geopolíticas, ainda é uma realidade para o país. A lição para o Brasil, segundo a análise, é a necessidade de agilizar os processos regulatórios sem comprometer a segurança, uma vez que a emergência climática exige ações rápidas.






















