Energisa propõe que baterias fiquem mais próximas dos consumidores para otimizar o sistema elétrico e impulsionar a transição energética.
A Energisa, gigante do setor de distribuição de energia, defende uma mudança estratégica na localização de sistemas de armazenamento por baterias. A visão da companhia é que instalar esses equipamentos em subestações de distribuição, mais perto dos usuários finais, pode ser uma solução mais eficaz para os desafios de flexibilidade da rede elétrica do que concentrá-los apenas na infraestrutura básica de transmissão. Essa perspectiva foi apresentada por Fernando Maia, vice-presidente de Regulação e Relações Institucionais da Energisa, durante o evento Aquecimento MinutoMega Talks, realizado pela MegaWhat no Rio de Janeiro.
O debate ganha força em um cenário de rápida expansão da geração de energia renovável, que, embora benéfica, introduz a necessidade de maior gerenciamento da intermitência e do excesso de produção em determinados períodos, como durante o dia, e a demanda nos horários de pico. A proposta da Energisa busca maximizar a eficiência e a resiliência do sistema como um todo.
Baterias: Onde e Como Usar?
Fernando Maia enfatizou que, embora o aguardado leilão de reserva de capacidade com baterias seja um passo importante para o sistema elétrico brasileiro, ele não será suficiente para resolver completamente as questões de sobrecarga diurna e a escassez de energia no horário de ponta. A localização estratégica das baterias é crucial.
Não é o melhor local de se colocar a bateria na rede básica. O melhor local de se colocar a bateria é mais próximo da carga. Seria lá nas subestações de distribuição, onde ela consegue, já dali para cima, planificar a curva de carga. Ou seja, transferir a sobra do almoço para guardar para a janta.
Essa afirmação sublinha a ideia de que a proximidade com o consumidor permite que as baterias atuem de forma mais direta na regulação da carga, armazenando o excedente de energia renovável gerada, por exemplo, por painéis solares em dias ensolarados, para ser utilizada quando a demanda for maior, como no início da noite.
Visão Multiatributos dos Especialistas
O papel dos sistemas de armazenamento na expansão do sistema elétrico tem sido amplamente discutido. Especialistas no evento defenderam que os múltiplos benefícios das baterias devem ser avaliados de forma integrada, e não apenas em comparações simplificadas com outros ativos. Mateus Cavaliere, head de Planejamento e Inteligência de Mercado da PSR, ilustrou essa complexidade.
Se eu comparar a bateria só contra o compensador síncrono, ela é muito mais cara. Agora, se eu comparo ela contra o compensador síncrono fornecendo potência para o sistema como ativo de geração, você tem ali uma economia real para o sistema.
Cavaliere destacou ainda que as baterias podem otimizar o uso da infraestrutura de transmissão existente, que frequentemente opera com baixa capacidade. A assessora executiva da Diretoria de Planejamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Sumara Ticom, corroborou que as baterias possuem “muitas funções”, podendo complementar diversas soluções de transmissão. Embora reconheça o potencial da tecnologia nas redes de distribuição, ela lembra que o planejamento da expansão é atribuição da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), e a operação, do ONS.
O Novo Papel das Distribuidoras
A Energisa vislumbra um novo protagonismo para as distribuidoras nesse cenário, atuando como operadores locais do sistema (DSO). Fernando Maia indicou que a companhia já explora soluções de flexibilidade através do FlexLab e projetos de baterias em nível de consumo. Ele ressaltou que a resposta aos desafios não pode ser apenas centralizada, exigindo maior controle sobre recursos conectados à distribuição, como a geração distribuída, as próprias baterias e cargas flexíveis.
Precisamos ter mais recursos para poder controlar tudo que vem de baixo para cima. Então, não é só uma solução de cima para baixo. Agora, tem que vir de baixo para cima também.
Essa transformação exige mudanças regulatórias, novas autorizações e investimentos significativos em tecnologia por parte das distribuidoras, que se tornariam “maestros auxiliares” do ONS, o “grande maestro” do sistema.
Desafios na Resposta do Consumidor
Em um projeto-piloto de sandbox tarifário, o Tarifa Melhor Hora, a Energisa testou sinais de preço em baixa tensão com cerca de 4 mil consumidores. Apesar de patamares de preço agressivos, com diferenças de quase dez vezes entre horários de pico e “super econômicos”, a resposta estatística dos consumidores foi considerada irrelevante.
Infelizmente, a resposta do serviço, com todo o apoio da USP, da consultoria, nos apoiando na avaliação, na interpretação do resultado, estatisticamente a gente não conseguiu uma evidência de que esse consumidor responde a esse sinal de preço.
Esse resultado indica que apenas a tarifa diferenciada não é suficiente para mudar o comportamento de consumo. Será necessário investir em tecnologia, comunicação e, eventualmente, em controle direto de cargas específicas, replicando experiências internacionais onde as distribuidoras interagem com equipamentos nas instalações dos consumidores.
A visão da Energisa aponta para uma transformação profunda do setor elétrico, onde a inteligência da rede, a gestão local e a tecnologia de armazenamento se combinam para criar um sistema mais flexível, eficiente e sustentável. O desafio é adaptar o arcabouço regulatório e tecnológico para que essa visão se concretize, impulsionando a transição energética do Brasil.






















