A crescente volatilidade do preço da energia no Brasil obriga empresas a tratarem a eletricidade como um ativo estratégico, integrando o risco energético às suas metas de sustentabilidade financeira.
O cenário econômico brasileiro impõe uma nova realidade às corporações: a necessidade de gerir o custo da energia elétrica com a mesma precisão utilizada em outras operações financeiras complexas. Com margens operacionais sob pressão e um mercado livre de energia cada vez mais instável, o setor produtivo está deixando de enxergar o gasto com luz como uma simples conta operacional para posicioná-lo no centro da gestão de riscos corporativos.
Essa transformação, que ganha força entre indústrias eletrointensivas, responde a um ambiente de incertezas. A rápida expansão de fontes renováveis, como a solar e a eólica, embora positiva para a descarbonização, trouxe desafios operacionais que se somam a uma carga crescente de encargos setoriais. Para companhias de setores como siderurgia e papel e celulose, onde a energia representa até um quarto da receita líquida, qualquer oscilação severa pode comprometer a saúde financeira do negócio.
A gestão de riscos como diferencial competitivo
A discrepância entre a maturidade da gestão financeira tradicional e a administração energética ainda é um ponto de atenção. Enquanto empresas mantêm controles rigorosos sobre dívidas e oscilações cambiais, o gerenciamento da exposição ao preço da energia muitas vezes fica em segundo plano, deixando o caixa vulnerável a surpresas desagradáveis.
“O contraste no ambiente corporativo ainda é evidente. Empresas que monitoram de forma rigorosa sua exposição cambial, hedge de commodities e estrutura de dívida, muitas vezes deixam o custo energético fora da lógica financeira de gestão de risco”, afirma Philipe Kilzer, diretor de Operações Estruturadas do Grupo Bolt.
Impacto real do PLD e dos encargos setoriais
O PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) tem servido como um termômetro dessa volatilidade. Em 2024, o valor saltou de patamares mínimos para valores superiores a R$ 280/MWh, penalizando severamente quem não possui contratos de proteção. Para uma indústria com consumo médio, isso pode representar milhões de reais em custos não previstos, tornando a ausência de mecanismos de um risco de negócio inaceitável.
A pressão também vem do lado regulatório. A CDE (Conta de Desenvolvimento Energético) atingiu a marca de R$ 49,2 bilhões para 2025, um aumento de 32%. Esse encargo recai sobre todos os consumidores, reforçando que a migração para o ACL (Ambiente de Contratação Livre) não deve ser movida apenas pela busca de economia imediata, mas sim por um planejamento robusto que contemple a complexidade do setor elétrico brasileiro.
Projeção e futuro: Energia no radar dos conselhos
Inspiradas pela crise energética europeia, as empresas brasileiras começam a elevar o debate sobre energia aos conselhos de administração. O foco está mudando da busca pelo menor preço para a construção de resiliência. Estruturas como autoprodução, contratos de longo prazo e estratégias personalizadas de gestão de portfólio tornam-se ferramentas vitais para garantir a previsibilidade necessária à operação industrial.
Para o futuro próximo, o mercado deve observar uma busca maior por sofisticação. A maturidade dos consumidores no ACL exigirá não apenas a compra de eletricidade, mas a gestão inteligente das oscilações, especialmente frente a fenômenos técnicos como o curtailment. Em última análise, a pergunta que guiará os gestores será cada vez mais financeira:
“A pergunta que os conselhos de administração devem se fazer hoje não é mais ‘quanto custa a nossa energia’, mas sim qual é o tamanho da nossa exposição e o real impacto disso na nossa geração de caixa”, complementa Kilzer.






















