Mesmo com cenário hídrico desafiador, o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap) de março surge como um fator crucial para estabilizar os preços de energia e aliviar as bandeiras tarifárias em 2026.
Apesar das recentes melhorias nas condições de chuva, que contribuíram para a recuperação de parte dos reservatórios no Sul do Brasil, o Sistema Interligado Nacional (SIN) caminha para encerrar o período úmido com a sexta pior Energia Natural Afluente (ENA) em quase um século de registros. Esse panorama preocupante foi detalhado durante a 318ª reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), realizada em 13 de maio, revelando a persistência de um desafio hídrico significativo para o país.
A projeção para maio indica que a ENA do SIN pode ficar entre 73% e 85% da Média de Longo Termo (MLT). Em uma das regiões mais críticas, o Sudeste/Centro-Oeste, as afluências esperadas variam entre 78% e 82% da média histórica. Contudo, a notícia traz um alento importante para o setor elétrico: a entrada em operação das usinas contratadas no último Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap) promete um impacto positivo substancial nos custos e nas bandeiras tarifárias.
Cenário Hídrico Desafiador Persiste
Mesmo diante de um período úmido abaixo do esperado, o CMSE observou uma melhora nas condições operativas desde abril, com o nível de armazenamento do SIN atingindo cerca de 71% no final do mês, um patamar similar ao do ano anterior. O destaque positivo ficou para a região Sul, que registrou chuvas acima da média nas bacias dos rios Iguaçu, Paranapanema e Jacuí, além do aumento de geração em Itaipu.
Ainda assim, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) alertou para a possível necessidade de acionamento de geração térmica complementar até outubro de 2026, caso a demanda cresça ou as condições climáticas se deteriorem, embora o uso total desse recurso não esteja confirmado. Em abril, já houve despacho térmico para garantia de suprimento no Sul, com uma média de 5,6 MW médios, e importação pontual de energia.
LRCap Traz Alívio Esperado para Preços
As afluências reduzidas, um fator que historicamente pressiona os preços e as tarifas de energia, teriam um impacto severo em 2026 sem as novas contratações. Em um cenário sem os efeitos do LRCap, o Preço de Liquidação de Diferenças (PLD) médio projetado para o Sudeste/Centro-Oeste seria de R$ 342,87/MWh. Isso resultaria em bandeira tarifária vermelha patamar 1 já em junho e vermelha patamar 2 entre julho e novembro.
A expectativa muda com a entrada em operação das usinas térmicas contratadas no LRCap de março, prevista para agosto deste ano. Essas usinas devem reduzir a necessidade de geração térmica adicional em cerca de 3,3 GW médios, impactando o PLD médio de 2026 com uma redução de aproximadamente R$ 70/MWh. Essa contribuição é vital para a sustentabilidade econômica do sistema.
“A entrada das novas térmicas do LRCap representa uma ‘rede de segurança’ crucial para o setor elétrico, mitigando os riscos de escassez e volatilidade de preços em um cenário hidrológico incerto”, afirmou um especialista do mercado de energia, destacando a importância da diversificação da matriz.
Graças a esse aporte, a projeção para as bandeiras tarifárias migraria de vermelho patamar 2 para amarelo entre julho e novembro, com a possibilidade de retorno à bandeira verde em dezembro, trazendo um alívio direto para o consumidor e para a indústria.
Debate sobre o CVaR Adiado
Diante do significativo impacto estrutural das usinas do LRCap no equilíbrio do sistema, o CMSE optou por adiar a decisão sobre os parâmetros de aversão ao risco (CVaR) que serão aplicados nos modelos computacionais a partir de 2027. O comitê solicitou estudos adicionais ao ONS e à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) para uma avaliação mais aprofundada dos efeitos do leilão no balanço de potência e nas condições operativas do SIN antes de definir o novo parâmetro. A decisão final sobre o CVaR é esperada até julho, para que possa entrar em vigor em janeiro de 2027.
Essa pauta é um ponto de divergência no setor, com comercializadores, consumidores industriais e geradores de energia limpa defendendo uma redução da aversão ao risco atual, alegando que o modelo conservador eleva custos desnecessariamente. Por outro lado, geradores hidrelétricos e termelétricos defendem a manutenção do parâmetro atual, citando a volatilidade hídrica recente como justificativa para o conservadorismo.
Perspectivas e Próximos Passos
O cenário de 2026 desenha um equilíbrio delicado entre a dependência hídrica e a resiliência estratégica da geração térmica contratada. A capacidade do LRCap em estabilizar o PLD e as bandeiras tarifárias sublinha a importância de um planejamento energético robusto. A decisão sobre o CVaR será fundamental para moldar as políticas de risco e os investimentos futuros no setor elétrico, influenciando diretamente a capacidade do Brasil de garantir segurança e sustentabilidade no fornecimento de energia a longo prazo.






















