O leilão de capacidade trouxe à tona a disputa entre termelétricas e baterias, mas o espaço para o armazenamento de energia em sistemas de BESS ainda é promissor.
A recente decisão do Congresso Nacional de questionar o 2º Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) reacendeu um debate crucial para o futuro energético do Brasil: a coexistência e complementaridade entre usinas termelétricas e sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS). O setor de BESS, em particular, aguarda ansiosamente a definição do governo federal sobre o primeiro leilão dedicado a essa tecnologia, originalmente previsto para 2026, mas que ainda carece de um cronograma claro.
A preocupação é palpável: o recente LRCAP, que contratou mais de 16 GW, predominantemente de usinas a gás natural, poderia ofuscar a urgência necessária para o certame de baterias. Analistas do mercado energético, no entanto, apontam que BESS e termelétricas não são inimigas mortais, mas sim soluções que, a depender de suas características, podem atuar de forma conjunta e estratégica no Sistema Interligado Nacional (SIN). A questão central que emerge é o real espaço que as baterias ainda ocupam no planejamento energético brasileiro pós-leilão de capacidade.
A Concorrência e Complementaridade entre Tecnologias
Embora haja uma percepção de disputa direta, especialistas desmistificam a ideia de que o LRCAP de março tenha esgotado a necessidade de sistemas de armazenamento. Fábio Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), reconhece a concorrência, mas aponta para um déficit de potência estimado entre 3 GW e 5 GW que as baterias poderiam suprir. Ele ressalta que a definição do volume exato é uma decisão de política pública a ser tomada pelo Ministério de Minas e Energia (MME).
Consultorias como a PSR projetam que o primeiro leilão de BESS pode variar de 500 MW a 2 GW. Surpreendentemente, essas estimativas atuais são até maiores do que as feitas antes do LRCAP, refletindo mudanças em premissas como a projeção de carga do sistema e a expectativa de contratação de usinas já existentes. Jairo Terra, da PSR, destaca a crescente volatilidade do sistema, impulsionada pela mini e micro geração distribuída, a demanda de data centers e a maior participação do consumidor, fatores que demandam flexibilidade e, consequentemente, o papel das baterias.
“Temos visto um desafio para o sistema, com muita mini e micro geração distribuída, aumento de carga com data centers, maior volatilidade e participação do consumidor na geração”, comenta Terra.
O Papel Estratégico do BESS no Sistema Elétrico
A tecnologia BESS oferece atributos únicos que a tornam complementar às termelétricas. Enquanto as usinas a gás podem garantir disponibilidade 24/7, as baterias possuem a capacidade de atuar tanto como consumidores quanto geradores, deslocando o aproveitamento de energias renováveis intermitentes para momentos de maior necessidade. Adriana Oliveira, da Thymos, enfatiza que as baterias são ideais para mitigar problemas como o *curtailment* (desperdício de energia renovável) e a modulação de carga, otimizando o uso da infraestrutura existente.
O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2035), divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), projeta um crescimento expressivo para o BESS, com um aumento de mais de 600 MW até 2028, alcançando 6,6 GW em 2035. Essa projeção é mais do que o dobro da estimada anteriormente, indicando uma crescente percepção da competitividade e viabilidade econômica da tecnologia. Um recente relatório da Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena) corrobora essa tendência, mostrando que soluções híbridas com armazenamento já se mostram mais econômicas que combustíveis fósseis em regiões com alta produção de energia solar e eólica.
Caminhos para a Definição e Implicações Futuras
Apesar das projeções positivas, o principal entrave para a expansão acelerada do BESS no Brasil reside na pendência da regulamentação específica pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A demora na publicação da portaria com as diretrizes do leilão pelo MME alimenta a incerteza em um cenário macroeconômico desafiador. Empresas como a Huawei, Brasol, Elera Renováveis e Axia Energia estão entre as que pressionam por maior clareza.
O resultado do LRCAP de março está em fase de homologação, mas enfrenta questionamentos em diferentes instâncias, como no Tribunal de Contas da União (TCU) e na própria Aneel, além de mobilização no Congresso. O deputado federal Danilo Forte tem sido uma voz ativa na crítica ao leilão de capacidade, argumentando que tecnologias mais baratas e eficientes, como o BESS, foram propositalmente excluídas em favor de usinas termelétricas mais caras e poluentes. A pressão política, somada à necessidade de regulamentação e à atratividade de atividades reguladas no setor elétrico, sinaliza que a definição do futuro do BESS no Brasil é um processo em andamento, com potencial para reconfigurar o panorama energético do país nos próximos anos.






















