O setor de energia discute a necessidade de tornar a Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (Pnast) mais ágil para suportar o crescimento acelerado de data centers no país.
A expansão robusta da infraestrutura digital no Brasil esbarra em um desafio logístico e regulatório: a velocidade de conexão à rede elétrica. Com a implementação da Pnast (Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão), o setor busca transitar de um modelo de “fila de espera” por ordem de chegada para um sistema de janelas periódicas de contratação.
Contudo, vozes influentes do mercado apontam que o cronograma atual pode não ser suficiente para acompanhar o dinamismo exigido por grandes consumidores, como os data centers.
Durante o Lefosse Energy Day 2026, especialistas alertaram que o atual desenho da política, estruturado pelo Decreto 12.772/2025, carece de flexibilidade. A preocupação central é que a rigidez das temporadas de acesso force empresas a adiarem projetos estratégicos devido ao descasamento entre o calendário regulatório e as janelas de decisão de investimento dos empreendedores.
Flexibilidade e novas demandas
Sandro Yamamoto, da Renova Energia, questiona a suficiência das janelas bienais previstas a partir de 2027. O executivo defende uma mudança estrutural, sugerindo que a Pnast funcione de forma contínua, com datas de corte específicas para o enquadramento de projetos.
Para o setor, essa adaptação permitiria que o interessado mantivesse seu pleito ativo no sistema, evoluindo conforme a maturação do seu projeto.
O diretor de Novos Negócios da Renova Energia questionou:
“Será que um Pnast sempre aberto, com três datas limites no ano?”
Ele destaca a dificuldade de acomodar cargas de grande porte, como uma conexão de 60 MW que perde o prazo por questões contratuais. A visão é compartilhada por Marcela Martins, da Ascenty, que vê a antecipação de informações como um caminho possível para melhorar a eficiência da rede.
Segundo ela, o planejador poderia ter visibilidade de demandas em gestação muito antes da etapa final de disputa, permitindo um desenho de rede mais preciso.
O desafio da infraestrutura de transmissão
Atualmente, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) gerencia a primeira rodada do novo modelo. Com a divulgação da capacidade remanescente do SIN (Sistema Interligado Nacional) prevista para o final de agosto, o mercado aguarda os próximos passos para entender como a concorrência pelo acesso será resolvida.
A precificação da escassez é vista, por um lado, como uma ferramenta positiva para coibir pedidos especulativos que travam a rede. Entretanto, o gap entre a necessidade de carga e a prontidão das linhas é gritante.
Victor Carazzato, da Odata, ressalta que, enquanto um data center de grande porte pode ser erguido em 24 meses, a expansão estrutural da rede de transmissão demanda um tempo muito superior.
O executivo defende uma maior participação privada na execução de reforços da rede, ao que Marcela Martins observa:
“Esse reforço, essa ampliação, eu não posso fazer. Eu fico na dependência do planejador.”
Ela reforça a urgência de mecanismos como os adotados no Chile e México, onde o consumidor pode antecipar obras estruturais com posterior ressarcimento. A expectativa do setor é que, à medida que a Pnast amadureça nas próximas temporadas, o governo considere essas sugestões de maior flexibilidade.
O objetivo final é garantir que o Brasil não perca competitividade na atração de grandes investimentos de tecnologia por gargalos na infraestrutura de conexão à rede básica.
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