Nova era dos biocombustíveis: Brasil amplia mistura de renováveis e desafia São Paulo a reforçar liderança no setor sucroenergético

Nova era dos biocombustíveis: Brasil amplia mistura de renováveis e desafia São Paulo a reforçar liderança no setor sucroenergético
Nova era dos biocombustíveis: Brasil amplia mistura de renováveis e desafia São Paulo a reforçar liderança no setor sucroenergético - Foto: Divulgação / Arquivo
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E30 e B15 são esperados mais de R$ 10 bilhões em investimentos, criação de mais de 50 mil postos de trabalho e redução de preço nos postos de combustíveis.

O Brasil tem uma trajetória pioneira no uso de biocombustíveis. Nos anos 1970, com o lançamento do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), o país apostou na produção e no uso de etanol anidro de cana-de-açúcar como solução estratégica para reduzir a dependência do petróleo e demais combustíveis fósseis. A iniciativa abriu caminhos para as tecnologias que transformaram o setor sucroenergético brasileiro em referência mundial.

São Paulo, com sua tradição agrícola e alta capacidade industrial, tornou-se o epicentro dessa renovação. O Estado liderou a expansão da produção da gramínea com investimentos em inovação, tecnologia, mecanização e políticas públicas que garantiram competitividade internacional. Mais recente, o etanol anidro produzido a partir do milho ganhou força em 2012 e, 12 anos depois, já representa 19% da produção brasileira.

Com o anúncio do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) sobre a obrigatoriedade em elevar a mistura de biocombustíveis, em vigor desde agosto deste ano, a gasolina passou a contar com 30% de etanol (E30) em vez de 27% (E27), e o diesel com 15% de biodiesel (B15), ante 14% (B14). De acordo com o Governo Federal, com a transição do E27 para o E30, são esperados mais de R$ 10 bilhões em investimentos, criação de mais de 50 mil postos de trabalho e redução de preço nos postos de combustíveis, que pode diminuir em até R$ 0,20 o valor final no bolso do consumidor.

O professor e especialista em estratégias empresariais Marcos Fava Neves, fundador da Harven Agribusiness School e da plataforma de conhecimento Doutor Agro, afirma que, com o crescimento da demanda mundial por açúcar, a mudança pode favorecer os agricultores paulistas para um novo destino das safras.

“Essa medida também traz impactos favoráveis como a própria valorização do produto, o incremento do mercado e, principalmente, a possibilidade de uma ampliação do setor sucroenergético, pelo crescimento da demanda mundial de açúcar e do etanol anidro

conta.

Para a produção do combustível, a ascensão do etanol de milho deve ser complementar. De acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), é fato que a produção do etanol de cana-de-açúcar caiu na safra 2024/2025, finalizada em março, ainda sem perder o posto de protagonista com processamento de 621,8 milhões de toneladas no Centro-Sul. São Paulo responde por 57,5% dessa moagem.

No geral, a fabricação do biocombustível registrou recorde com o total de 34,96 bilhões de litros, crescimento de 4,06% em relação ao volume da safra anterior. A Unica destacou que o impulso aconteceu na produção de etanol de milho, com alcance de 8,19 bilhões de litros, 30,70% a mais na comparação com igual período do ano passado. O montante representa 23,43% da produção do renovável no Centro-Sul.

Segundo a professora e Eng. Agr. Gisele Herbst Vazquez, coordenadora da Câmara Especializada de Agronomia (CEA) do Crea-SP, a gramínea é uma cultura semiperene, que permite de cinco a seis cortes anuais sem necessidade de replantio, garantindo estabilidade ao produtor.

São Paulo participa pouco na produção nacional de milho, mas o grão é um reforço para ajudar a reduzir a emissão de combustíveis fósseis e tornar o setor mais sustentável para as energias renováveis

pontua.

“O grande desafio que temos é aumentar a produtividade da cana e, talvez, com modificação genética, aumentar a fixação, os açúcares, para que, com isso, possa vir mais perto das usinas, diminuindo o raio médio, o custo de transporte e a tornar bem mais competitiva”

complementa Neves.

Para impulsionar o potencial, o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, desenvolveu um coquetel enzimático capaz de liberar a glicose presente no bagaço da cana. “Com essa tecnologia, é possível aumentar a produção de etanol em até 57% por hectare, sem ampliar a área plantada”, informa Mário Tyago Murakami, pesquisador e vice-presidente do CTNBio, instância do CNPEM para implementação da Política Nacional de Biossegurança de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs).

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Murakami explica que, na prática, a mesma quantidade de biomassa pode render muito mais combustível, aproveitando resíduos que antes tinham valor limitado. A descoberta já foi validada em planta-piloto e tem patentes depositadas, com potencial de aplicação em escala industrial. A contribuição pode ser decisiva para São Paulo, que busca manter a competitividade frente à expansão do milho.

Estratégias e Programas Governamentais

Já a aposta governamental é a de que o Programa Combustível do Futuro, Lei nº 14.993/2024, torne o Brasil modelo mundial de descarbonização. A iniciativa amplia a participação de combustíveis renováveis a fim de promover a mobilidade sustentável de baixo carbono, a captura e a estocagem geológica de dióxido de carbono, além da criação de bases regulatórias para captura e estocagem de carbono.

Gisele lembra que o programa Selo Biocombustível Social, gerido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), também pode ajudar pequenos agricultores em culturas que contemplam os biocombustíveis.

“O programa vai ajudar o agricultor familiar a produzir o milho para o etanol ou cultivos para o biodiesel, que pode ser produzido a partir de soja, mamona, sebo de boi, amendoim e até outras matérias-primas em abundância em São Paulo

destaca.

A complementaridade entre cana e milho, portanto, está sendo sinérgica. Enquanto o milho ganha espaço em estados como Mato Grosso e Goiás, São Paulo reforça sua vocação canavieira, agora potencializada por tecnologia de ponta.

Usinas em foco

Até a primeira quinzena de agosto, 257 unidades produtoras estavam em operação na região Centro-Sul, sendo 237 para processamento de cana-de-açúcar, 10 dedicadas ao etanol de milho e outras 10 usinas flex, que alternam entre as duas matérias-primas. Os dados são da Unica.

Segundo a União Nacional do Etanol de Milho (Unem), o grão responde por 20% do etanol consumido no Brasil, participação que deve crescer com a abertura de 21 novas biorrefinarias, sobretudo no Centro-Oeste. Os investimentos anunciados somam R$ 23 bilhões, conforme levantamento do ItaúBBA. A expectativa é elevar a produção de 8,2 bilhões para 12,1 bilhões de litros por safra, um salto de 50%.

Os subprodutos e resíduos das duas culturas também são aproveitados para geração de energia elétrica, biogás, ração animal, fertilizante para as lavouras, dentre outros. Para os especialistas, o futuro das usinas passa pela diversificação desses biocombustíveis para, assim, se consolidar como peça-chave na matriz energética brasileira.

Esta reportagem foi veiculada originalmente na 17ª edição da Revista CREA São Paulo. Acesse aqui.

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