Desvendando as Estratégias Comerciais que Consolidam a Presença Chinesa no Mercado Brasileiro
Controle da Cadeia Produtiva: A Consolidação do Domínio Chinês no Brasil
Por Márcio Coimbra – SP
A aquisição, pela gigante CMOC (empresa estatal chinesa), de subsidiárias da canadense Equinox Gold por US$ 1 bilhão, representa mais do que uma simples movimentação de mercado; é um evento de grande impacto geoeconômico.
Ao assumir o controle das minas de Aurizona (MA), Riacho dos Machados (MG), Fazenda e Santa Luz (BA), a CMOC não apenas eleva seu faturamento — que chegou a R$ 5,6 bilhões em 2025 — mas também verticaliza seu domínio sobre recursos que são, fundamentalmente, ativos estratégicos para a soberania brasileira.
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A CMOC já estava estabelecida no Brasil operando com nióbio e fertilizantes desde 2016. Com a adição da exploração de ouro, a empresa diversifica seu portfólio em um contexto de forte valorização do metal. Contudo, o ponto crucial dessa operação é a internalização completa das etapas produtivas.
Ao controlar a extração em território nacional e gerenciar a comercialização internacional por meio de sua trading, a IXM, Pequim reforça seu controle sobre toda a cadeia produtiva. Para o Brasil, sob essa ótica, resta a exportação de produtos com baixo valor agregado e o recebimento de *royalties*, enquanto o conhecimento estratégico sobre a destinação final desses minerais é transferido para a China.
O interesse chinês possui um foco bem definido. O ouro se consolidou como um ativo de segurança** em meio às tensões entre os blocos geopolíticos ocidentais e asiáticos em 2026. Entretanto, a verdadeira importância estratégica reside nos minerais críticos. O Brasil detém aproximadamente 90% das reservas mundiais de nióbio, um componente essencial para ligas de aço de alta performance e supercondutores.
A fragilidade brasileira surge ao permitir que o controle desses recursos — onde o país detém um monopólio geológico — fique concentrado em uma única entidade estatal estrangeira, sem que haja exigências claras de transferência de tecnologia ou agregação de valor em território nacional.
A raiz do desafio reside na grande assimetria regulatória. Enquanto nações como EUA, Austrália e a própria China têm intensificado suas leis para fiscalizar investimentos estrangeiros em setores considerados estratégicos, o Brasil carece de um mecanismo institucionalizado de triagem (*screening*).
Sem um equivalente ao CFIUS (Comitê de Investimento Estrangeiro nos Estados Unidos), o Estado brasileiro não possui base legal para avaliar se a transferência de ativos pode comprometer sua autonomia futura.
O país segue uma lógica comercial de curto prazo, ignorando que a soberania, no cenário atual, é exercida através do controle das cadeias de suprimentos. Em resumo: O Brasil encontra-se vulnerável.
A hegemonia chinesa se estabelece no processamento químico, dominando 90% da capacidade mundial de refino. Ter vastas reservas se torna ineficaz se a tecnologia de separação e beneficiamento estiver localizada em outro continente.
Caso o Brasil não exija o refino em suas fronteiras, permanecerá como um exportador de matéria-prima bruta e um importador de tecnologia futura, fornecendo os insumos básicos para uma revolução tecnológica da qual não fará parte das decisões.
A criação de um marco legal específico para investimentos estratégicos deixou de ser uma mera formalidade burocrática e tornou-se uma necessidade urgente para a sobrevivência econômica e tecnológica.
É fundamental que o Brasil entenda que, no xadrez geopolítico de 2026, nem todo investimento em dólar tem o mesmo impacto. Implementar mecanismos de filtro não significa fechar-se ao capital, mas sim exercer o direito de um Estado soberano de proteger sua inteligência e seus recursos estratégicos inalienáveis.
(Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia)
Visão Geral
A aquisição de minas de ouro brasileiras pela estatal chinesa CMOC, por US$ 1 bilhão, consolida o controle chinês sobre a cadeia produtiva de recursos estratégicos no Brasil, incluindo nióbio e ouro. Ao dominar a extração no país e a comercialização via sua *trading* (IXM), Pequim garante que o Brasil forneça a matéria-prima sem reter o valor agregado do processamento e refino — etapa na qual a China detém 90% da capacidade global. A situação revela a vulnerabilidade brasileira devido à ausência de um mecanismo de triagem (*screening*) regulatório robusto para investimentos estrangeiros em setores críticos, diferentemente de outras grandes economias. A conclusão é que, sem exigir o refino doméstico e estabelecer filtros soberanos, o país corre o risco de se tornar um mero fornecedor de recursos, perdendo o controle sobre seu futuro tecnológico.
Créditos: Misto Brasil






















