O recente relatório da IEA sobre o Sudeste Asiático revela uma verdade incômoda: o carvão permanece indispensável para a segurança energética regional, desafiando planos de descarbonização acelerada.
A publicação do relatório ASEAN Energy Security Review 2026, elaborado pela Agência Internacional de Energia (IEA), trouxe um choque de realidade ao debate sobre a transição energética global. Enquanto o mundo pressiona pela eliminação rápida dos combustíveis fósseis, o documento expõe que, para as nações do Sudeste Asiático, o carvão mineral continua sendo o pilar fundamental que sustenta o crescimento industrial e a estabilidade elétrica.
Para países como Indonésia, Vietnã e Filipinas, a questão não é apenas climática, mas de sobrevivência econômica. Com uma demanda por eletricidade projetada para crescer 5,4% ao ano até 2030, a região enfrenta o dilema de equilibrar a expansão de fontes renováveis com a necessidade urgente de energia de carga de base, capaz de suportar o avanço dos centros de dados e a urbanização acelerada.
O papel estratégico do carvão em tempos de crise
A dependência regional do carvão ficou evidente durante as tensões geopolíticas de 2026, quando interrupções no fornecimento de gás natural liquefeito (GNL) pelo Estreito de Hormuz forçaram nações asiáticas a retomar ou ampliar a operação de usinas térmicas a carvão. A IEA observou que, diante de um cenário de escassez, a segurança energética falou mais alto que a velocidade da descarbonização.
A transição energética não acontece em um vácuo econômico ou geopolítico. Ela precisa levar em consideração fatores como confiabilidade do fornecimento, custos para consumidores, disponibilidade de recursos naturais e maturidade tecnológica.
Este posicionamento pragmático da agência ressalta que infraestruturas renováveis — por vezes prejudicadas por gargalos de transmissão e intermitência — ainda não oferecem, isoladamente, a robustez necessária para economias em pleno desenvolvimento industrial.
Desafios além da matriz elétrica
Além da geração de energia, o carvão sustenta cadeias produtivas essenciais. A Indonésia, responsável por uma fatia expressiva da produção mundial de níquel, exemplifica como a extração de minerais críticos — vitais para a fabricação de baterias de veículos elétricos — ainda está profundamente atrelada ao uso intenso de energia proveniente do carvão.
Para especialistas, o debate precisa evoluir para além da simples substituição de fontes. Fernando Luiz Zancan, presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável (ABCS), aponta que o relatório ignora o potencial da carboquímica. Para o setor, o futuro do insumo passa pela modernização tecnológica e pela diversificação de uso.
Zancan destaca:
No Brasil, totalmente dependente de fertilizantes e enxofre, não se fala que podemos produzi-los de forma competitiva e ambientalmente segura com o carvão nacional.
O especialista reforça a visão de que o carvão pode ser um vetor de soberania industrial quando integrado a tecnologias de captura e utilização de carbono (CCUS).
A trajetória das economias emergentes indica que a transição para uma matriz limpa será um processo gradual e heterogêneo. O sucesso dessa jornada dependerá da capacidade dos países em equilibrar a redução de emissões com a manutenção de um sistema elétrico confiável, evitando que a pressa por metas globais resulte em vulnerabilidade energética e instabilidade social.
O futuro da ASEAN, portanto, não é uma escolha binária, mas uma combinação complexa de inovação técnica e realismo econômico.














