Após enfrentar uma severa crise, a Boven Energia informou à Aneel ter reestruturado suas operações e agora demonstra capacidade de honrar seus compromissos, marcando uma fase de recuperação no mercado livre de energia.
A Boven Energia, uma das comercializadoras atuantes no mercado livre de energia, comunicou à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) que conseguiu reverter seu cenário de instabilidade econômico-financeira. A empresa havia sido impactada por uma crise de liquidez que resultou na rescisão de mais de trezentos contratos de compra e venda de energia de longo prazo, reduzindo drasticamente sua operação.
Essa declaração faz parte de um processo de fiscalização em curso pela Aneel, que busca assegurar a solvência da companhia e sua aptidão para manter as atividades e cumprir os acordos pós-crise. A recuperação da Boven é um ponto de atenção para o setor, especialmente para empresas menores que buscam segurança e estabilidade.
Reestruturação Profunda e seus Desdobramentos
A crise que atingiu a Boven foi marcada por desafios significativos. A empresa teve sua operação encolhida de um patamar de aproximadamente 1,5 GW médios mensais para cerca de 20 MW médios, uma redução drástica que evidencia a profundidade dos problemas enfrentados. Em março, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) já havia determinado o desligamento da Boven Comercializadora Varejista de Energia por não cumprir suas obrigações, tornando-a a primeira varejista a ser desassociada pela Câmara, impactando 260 unidades consumidoras. Em maio, a liquidação do Mercado de Curto Prazo (MCP) revelou uma inadimplência de R$ 9,69 milhões por parte da varejista.
Em resposta à Superintendência de Fiscalização Econômica, Financeira e de Mercado (SFF) da Aneel, a Boven detalhou suas ações de saneamento. A empresa firmou dezenas de acordos com credores e realizou uma profunda reestruturação de suas atividades para garantir a sustentabilidade de sua operação.
Estratégias para Estabilização
A falta de liquidez, atribuída a fatores amplamente reconhecidos no setor elétrico, impediu que a Boven honrasse seus contratos, tornando as rescisões inevitáveis. Contudo, a empresa afirma que, desde julho de 2025, tem se empenhado em negociações para evitar um processo de recuperação judicial e minimizar os impactos negativos para as partes envolvidas.
Atualmente, a operação da Boven concentra-se na compra de energia de contratos com a Copel, com vencimentos em 2032 e 2037, e de dois acordos com pequenos geradores que se encerram ainda este ano. Essa energia é então revendida a consumidores e outras comercializadoras. Para viabilizar os acordos com os credores, a companhia utilizou diversos ativos.
A Boven destaca seu compromisso em resolver a crise de forma transparente e responsável: “Optamos por utilizar patrimônio próprio para honrar compromissos assumidos com credores e contrapartes, diferenciando nossa atuação de práticas que, infelizmente, ocorreram em outros agentes do setor.”
Entre os recursos empregados, a comercializadora listou a venda de energia de longo prazo a preços abaixo dos de mercado, a transferência de ações de sua participação na BBCE, créditos judiciais superiores a R$ 300 milhões e até imóveis que faziam parte do patrimônio pessoal de seu sócio controlador. Além disso, a empresa implementou medidas de reestruturação interna, como a redução do quadro de funcionários e a mudança para um escritório de menor porte.
O Caminho Adiante e o Apelo à Regulação
Na manifestação enviada à Aneel, a Boven garante que sua situação financeira atual está estável e que a estrutura operacional ajustada permite cumprir os acordos, manter o pagamento dos salários e negociar um programa de parcelamento para regularizar débitos tributários. A empresa também mencionou que a Boven Geração, que compartilha sócios, pode prover aportes financeiros conforme a necessidade.
A Boven reconhece que a interrupção de suas operações de trading afetou diversas comercializadoras independentes de menor porte que dependiam dela como fornecedora principal. A maior parte dessas empresas já foi indenizada pelos prejuízos decorrentes das rescisões, restando apenas alguns casos a serem solucionados. Quanto aos questionamentos sobre a comercializadora Rahcrol, a Boven esclareceu que não há registros de transações de compra e venda de energia entre as duas, afirmando que a Rahcrol recebeu crédito da Boven por anos e que novas propostas de negociação podem ser apresentadas.
Ao final de sua resposta, a Boven Energia solicitou o apoio institucional da Aneel e da CCEE, reafirmando seu histórico de busca pelo cumprimento das obrigações no mercado e seu empenho em superar a crise de forma ética e responsável, utilizando inclusive patrimônio próprio para saldar dívidas e se distinguir de condutas consideradas irregulares no setor de energia.






















