A empresa Solví impulsiona a economia circular em São Paulo, transformando o lixo da cidade em combustível para sua própria frota de coleta.
A gestão de resíduos sólidos na capital paulista ganha um contorno inovador e sustentável com os planos da Solví. A gigante do setor, que opera 44 aterros sanitários no Brasil, está prestes a fechar um ciclo virtuoso: o lixo que chega a seus aterros será transformado em biometano, o combustível que movimentará os caminhões responsáveis pela coleta. Essa iniciativa pioneira visa reduzir a dependência de combustíveis fósseis e otimizar a infraestrutura urbana.
Atualmente, a maior parte dos resíduos da cidade – cerca de 60% do total diário – percorre uma longa distância até o aterro de Caieiras. Lá, o material orgânico em decomposição libera biogás, que desde 2024 tem sido purificado e comercializado como biometano para a indústria. A novidade agora é a aplicação desse gás renovável no abastecimento dos veículos da Loga, subsidiária da Solví responsável pela coleta de metade da cidade.
Investimentos Verdes e Expansão Estratégica
Para viabilizar essa transformação, a Solví garantiu um aporte significativo de R$ 800 milhões através do programa Eco Invest do Tesouro Nacional. Os recursos, provenientes de financiamentos com Bradesco e Itaú, serão direcionados para a expansão da capacidade do aterro de Caieiras, aprimoramento de suas estruturas de contenção de resíduos, construção de novas plantas de biometano e um projeto de recuperação energética com previsão de início em 2029.
Paralelamente, a Loga obteve um empréstimo de R$ 500 milhões do BNDES. Uma parte considerável desse montante será utilizada na substituição progressiva da frota atual, movida a diesel, por caminhões que operarão com biometano. Essa estratégia reforça o compromisso da empresa com a transição energética e a redução de emissões.
Um Novo Horizonte para a Solví
A Solví, com mais de cinco décadas de atuação, tem ampliado seus horizontes para além da gestão tradicional de resíduos. A empresa vem investindo em negócios alinhados à transição energética, como a operação de 11 termelétricas a biogás e a recente aquisição da Cetrel, especializada em tratamento de efluentes para a indústria química.
O biometano, gás renovável produzido a partir de resíduos orgânicos, emerge como um pilar central dessa expansão. A Solví já opera três plantas de biometano e planeja a construção de mais dez unidades em aterros com potencial econômico. “Essa, sem dúvida, é uma das principais avenidas de crescimento do grupo”, afirma Frederico Guimarães, diretor financeiro da Solví, destacando o potencial de geração de receita e o impacto ambiental positivo.
A meta de se tornar 100% movida a biometano na frota da Loga representa um marco na economia circular, onde o resíduo gerado em uma área da cidade retorna como recurso para a operação em outra. Essa sinergia demonstra o futuro da gestão urbana e energética.
Contudo, a trajetória da Solví também é marcada por desafios. O aterro de Marituba (PA) acumula um histórico de disputas judiciais relacionadas a questões ambientais e sociais. Apesar das licenças operacionais obtidas através de prorrogações, a comunidade local relata persistentes problemas com odores e possíveis impactos à saúde. A empresa não comentou sobre essas questões específicas.
“Não houve nenhum tipo de problema relacionado a isso na captação do financiamento”, assegura Guimarães, referindo-se às questões socioambientais que não teriam afetado os acordos financeiros. A relação da Solví com o poder público em Belém também enfrentou turbulências, com suspensão de recebimento de resíduos devido a dívidas municipais, situação que, segundo o executivo, já foi normalizada.
Os investimentos em sustentabilidade foram estruturados através de debêntures verdes, com prazos de 10 anos e remuneração atrelada ao DI. Consultorias independentes atestaram o alinhamento dos projetos aos padrões internacionais de títulos verdes. O descumprimento de cláusulas contratuais, como desvio de finalidade dos recursos ou falha na entrega de relatórios ambientais, pode acarretar o vencimento antecipado da dívida.
“Pela natureza do negócio, a Solví tem uma elegibilidade natural. A mesma operação trata resíduos, captura biogás, produz biometano. É, intrinsecamente, tudo o que o Eco Invest quer fomentar”, avalia Caio Andrade, responsável pela área de ESG do Bradesco BBI, reforçando a adequação da empresa ao foco em projetos ambientais e sociais.




















