A integração massiva de fontes renováveis ao Sistema Interligado Nacional exige um novo olhar sobre a estabilidade elétrica, priorizando o fortalecimento da inércia sistêmica para garantir segurança operacional.
A rápida transição energética brasileira, impulsionada pelo crescimento das energias eólica e solar, trouxe avanços tecnológicos indiscutíveis, mas elevou a complexidade da gestão do Sistema Interligado Nacional (SIN). Com a entrada crescente de fontes assíncronas, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) enfrenta desafios operacionais sem precedentes, especialmente pelo fato de que grande parte da geração distribuída, que cresce aceleradamente no país, opera fora de seu controle hierárquico direto.
O ponto central do debate levantado por Francisco Arteiro, diretor de operações da Axia Sudeste, reside na fragilidade que essas novas fontes introduzem à rede. Diferente dos geradores convencionais, as unidades renováveis, em sua maioria, não oferecem a inércia sistêmica necessária para estabilizar o sistema em momentos críticos, como durante distúrbios de grande magnitude.
A importância das máquinas síncronas
A estabilidade do sistema elétrico não depende apenas da capacidade de gerar potência ativa ou injetar reativos em regime permanente. Quando ocorrem oscilações eletromecânicas, a resposta imediata é vital. “A questão fundamental é que quem recompõe a estabilidade do SIN durante as oscilações produzidas por grandes perturbações é a inércia sistêmica, especialmente aquelas associadas às máquinas síncronas”, aponta Francisco Arteiro.
Embora tecnologias emergentes prometam uma inércia sintética — simulada através de conversores eletrônicos —, especialistas alertam que essa solução não substitui a massa física girante dos grandes geradores. Em cenários de instabilidade severa, apenas as unidades síncronas possuem a robustez mecânica para amortecer oscilações e evitar o colapso da rede.
Inovação e o futuro da rede
Para adaptar o SIN a essa nova realidade, o planejamento estratégico busca alternativas em leilões de transmissão. O uso de tecnologias como o VSC (Conversor com Fonte de Tensão), previsto para o elo que conectará o Brasil à Bolívia em outubro de 2026, é um passo fundamental. “A introdução da tecnologia VSC torna os inversores imunes às variações de tensão, reduzindo os riscos operacionais”, reforça o especialista.
Além da modernização das conexões, o setor discute melhorias regulatórias, como a exigência de maiores constantes de inércia em novos projetos e a otimização na operação de elos de corrente contínua. Estratégias como a redução da tensão nos elos CC e o gerenciamento inteligente de filtros de reativos emergem como soluções práticas para manter o controle de tensão em horários de carga leve, evitando manobras traumáticas como a abertura de linhas de transmissão.
Em última análise, a transição para um sistema sustentável exige um equilíbrio rigoroso entre a expansão das renováveis e a manutenção da confiabilidade do grid. O futuro da energia limpa no país depende, portanto, de uma engenharia que respeite os limites físicos da inércia, garantindo que o desenvolvimento econômico caminhe lado a lado com a segurança da infraestrutura elétrica nacional.























