O avanço do fenômeno El Niño exige uma estratégia híbrida no Brasil, unindo a expansão das energias renováveis à segurança das termelétricas para garantir o abastecimento nacional e evitar apagões.
A iminente chegada de um El Niño com potencial de intensidade histórica acende um alerta para o setor elétrico brasileiro. O fenômeno climático é conhecido por provocar secas severas nas regiões Norte e Nordeste, além de reduzir o volume de chuvas no Sudeste, impactando diretamente o nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas — a espinha dorsal da nossa matriz energética. Para manter o equilíbrio e evitar interrupções no fornecimento, o país precisará adotar uma combinação inteligente entre fontes renováveis e a geração térmica.
Diferente da crise de 2021, quando o país enfrentou desafios semelhantes com uma matriz menos diversificada, o Brasil de hoje apresenta um cenário mais robusto. O crescimento exponencial da energia solar e da energia eólica na última meia década oferece uma camada extra de proteção. Com uma capacidade instalada significativamente superior, essas fontes limpas tornam-se protagonistas na compensação da menor oferta hídrica prevista para os próximos ciclos, especialmente em 2027.
Diversificação e segurança energética
O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) reforça que a estabilidade do SIN (Sistema Interligado Nacional) não está ameaçada, desde que haja um planejamento rigoroso. Embora as fontes renováveis sejam mais baratas, sua intermitência exige o suporte de usinas termelétricas, que garantem o fornecimento sob demanda. O desafio reside em otimizar esse despacho para minimizar o impacto no bolso do consumidor, equilibrando o custo operacional com a necessidade de segurança.
“Ainda é cedo para estimar números, mas se o El Niño provocar novamente uma redução da geração hidrelétrica, a expectativa é que a energia eólica desempenhe um papel estratégico na segurança energética”, destaca Elbia Gannoum, presidente da Abeólica.
Complementando esse ponto, a Absolar reforça que a radiação solar intensa durante períodos de estiagem favorece a eficiência dos parques fotovoltaicos. Em nota, a associação destacou: “Quando os reservatórios enfrentam menor afluência, a geração solar tende a apresentar excelente desempenho devido à maior incidência de radiação solar e menor cobertura de nuvens”.
O papel das termelétricas e a gestão de riscos
Embora as termelétricas sejam vistas como fontes mais onerosas e poluentes, especialistas enfatizam que o custo de seu acionamento é amplamente compensado ao evitar cenários críticos. Xisto Vieira, diretor da Abraget, é enfático ao comparar as estratégias: “o custo para acionamento das usinas térmicas é menor do que o de um possível racionamento, que seria uma explosão na conta de luz”.
Apesar da situação atual dos reservatórios ser considerada confortável por entidades como a Abrage, o foco está na prevenção a longo prazo. O setor trabalha com a premissa de que a seca extrema em um ciclo pode prejudicar a recuperação dos recursos hídricos para o ano seguinte. Por isso, a manutenção da capacidade de despacho térmico permanece como um seguro necessário, mesmo com a expansão constante das alternativas sustentáveis.
Oportunidade para o setor de renováveis
Um efeito colateral curioso desta crise climática pode ser a redução dos chamados “curtailments” — o desperdício de energia limpa por falta de capacidade na rede de transmissão. Historicamente, o excesso de oferta solar e eólica no Nordeste muitas vezes ultrapassava a capacidade de escoamento. Com uma eventual diminuição da geração hidrelétrica, haverá maior “espaço” no sistema para absorver essa energia renovável.
Em suma, a transição energética do Brasil será colocada à prova nos próximos anos. A capacidade de integrar a força do sol e dos ventos com a previsibilidade das térmicas definirá o sucesso do país em atravessar os efeitos do El Niño. O futuro do setor elétrico reside, portanto, na resiliência de uma matriz cada vez mais plural e tecnologicamente avançada.























