Santander: El Niño beneficia distribuidoras mas gera incerteza para geradoras de energia

Santander: El Niño beneficia distribuidoras mas gera incerteza para geradoras de energia
Santander: El Niño beneficia distribuidoras mas gera incerteza para geradoras de energia - Foto: Reprodução / Freepik | Pixbay
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O fenômeno El Niño em 2026 promete aquecer o mercado de distribuição de energia, mas traz incertezas para geradoras, segundo análise do Santander.

A configuração do fenômeno climático El Niño para o segundo semestre de 2026 sinaliza um cenário promissor para as distribuidoras de energia no Brasil. A expectativa é de um aumento no consumo, impulsionado pelas temperaturas mais elevadas, o que pode se traduzir em receitas mais robustas para essas companhias. Contudo, o impacto sobre as geradoras de energia se mostra mais complexo, dependendo de uma série de fatores interligados.

A análise do banco Santander, divulgada recentemente, eleva o El Niño de um risco a ser considerado para um cenário climático base, tanto para 2026 quanto para 2027, em toda a América Latina. Essa mudança de perspectiva ressalta a importância de monitorar os efeitos do fenômeno no setor elétrico, que envolve uma intrincada relação entre temperatura, regime de chuvas, níveis de reservatórios, despacho de usinas térmicas e o padrão de consumo.

O impacto regional do El Niño é previsto como desigual. Enquanto o Brasil tende a registrar temperaturas mais altas, o Norte e o Nordeste podem enfrentar chuvas abaixo da média, em contraste com o Sul, que deve registrar precipitações acima do usual. Para as empresas de energia listadas e acompanhadas pelo banco, esses efeitos podem se manifestar em flutuações nos preços da energia, no consumo que é sensível ao clima e nas condições hidrológicas dos reservatórios.

Distribuição: um impulso de volume e receita

Para as distribuidoras brasileiras sob observação do Santander, como a Equatorial e a Energisa, o cenário aponta para um viés positivo. No caso da Equatorial, o banco destaca que o impacto do El Niño se manifesta principalmente através do volume de distribuição. O aumento das temperaturas nas áreas de atuação da companhia pode elevar a demanda por energia, sustentando tanto os volumes quanto as receitas reguladas, com uma sensibilidade classificada como baixa a média.

A perspectiva para a Energisa é similar. O clima mais quente tende a favorecer o consumo de energia em residências e comércios, gerando um efeito positivo para o segmento de distribuição. A diversificação geográfica da companhia também contribui para essa avaliação positiva, com uma sensibilidade também classificada como baixa a média.

Em contrapartida, a Copel, empresa sediada no Paraná, apresenta um quadro diferente. O Santander classifica a exposição da companhia como mista a negativa, com sensibilidade média. Isso se deve aos potenciais impactos do El Niño na região Sul, onde a tendência de chuvas mais abundantes pode levar a uma queda nos preços locais de energia, afetando negativamente a geração. Adicionalmente, o aumento das chuvas e temperaturas mais amenas poderiam reduzir o consumo na distribuição, embora uma alta generalizada nos preços de energia no mercado nacional pudesse mitigar parcialmente esse efeito local.

Geração: o dilema dos preços de energia

Para empresas de geração como a Auren e a Axia Energia, a análise do Santander é mista, com alta sensibilidade aos desdobramentos do El Niño. No caso da Auren, o principal fator de exposição reside nos preços da energia. O banco aponta que, se a hidrologia em bacias hidrográficas importantes melhorar, os preços podem cair. Por outro lado, se as condições do sistema elétrico se deteriorarem ou se houver um aumento no risco de despacho de usinas térmicas, os preços podem subir.

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A avaliação para a Axia Energia segue uma linha argumentativa semelhante. O relatório indica que a exposição da companhia ao El Niño deriva mais da dinâmica dos preços de energia do que de um impacto climático direto em suas operações. O fenômeno pode exercer pressão para baixo nos preços, caso a hidrologia se mostre favorável, ou sustentá-los, se o sistema enfrentar estresse generalizado.

Para corroborar suas análises, o Santander examinou o comportamento histórico dos preços de energia no Brasil durante episódios recentes e intensos de El Niño. Em 2015 e 2016, o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) sofreu uma forte retração em todos os submercados, chegando a cair 75% no Sudeste/Sul e 71% no Nordeste/Norte. Já no período de 2023 e 2024, o PLD apresentou uma alta inicial de cerca de 5%, mas encerrou o ciclo com uma queda de 18% nos principais submercados. Esse histórico reforça a conclusão do banco de que o El Niño não aponta uma direção única para os preços da energia.

Conexões internacionais: Chile e Colômbia sob a influência do El Niño

Na América Latina, a análise do Santander se estendeu a empresas de energia no Chile e na Colômbia. No Chile, a Enel Chile apresenta uma exposição moderadamente positiva, devido à sua significativa participação na geração hidrelétrica. Se as chuvas aumentarem nas regiões central e centro-sul, a empresa tende a expandir sua geração hídrica e reduzir a dependência de usinas térmicas, otimizando sua estrutura de custos. Contudo, o relatório alerta que eventos climáticos extremos podem impactar as operações de distribuição na região central chilena.

A Colbún, por sua vez, exibe uma leitura neutra a moderadamente positiva. O Santander aponta que a exposição hidrelétrica da companhia pode ser beneficiada por melhores condições de chuva. No entanto, a relação entre a intensidade do El Niño e a geração hidrelétrica não é linear, dependendo do momento em que o fenômeno ocorre, da distribuição geográfica das chuvas, da intensidade dos eventos e do estado dos reservatórios.

Para a Enel Américas, a avaliação é negativa ou mista negativa, com sensibilidade média a alta. O banco observa que, no Brasil, os impactos sobre a geração podem ser divergentes conforme a região, enquanto o segmento de distribuição pode ser afetado por eventos climáticos extremos. Na Colômbia, o impacto costuma ser negativo, pois o El Niño tende a reduzir os níveis dos reservatórios, aumentar a necessidade de geração térmica e impactar os preços no mercado de curto prazo, pressionando a estrutura de custos da companhia.

O relatório do Santander ainda destaca a particular sensibilidade da Colômbia ao canal hidrológico. Em 2023 e 2024, os preços spot de eletricidade no país subiram 29% do início ao pico do El Niño, refletindo o estresse hidrológico, mas posteriormente caíram 45% do início ao fim do evento. No Chile, os preços spot de energia nesse mesmo período registraram uma queda de 25% do início ao pico e 12% até o fim. No Peru, os preços spot recuaram expressivamente, 83% até o pico e 76% até o fim, levando o banco a concluir que, naquele mercado, os principais canais de impacto do El Niño não se dão pelos preços de energia, mas por danos físicos à infraestrutura, pesca, agricultura e oferta de alimentos.

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