A garantia de operação da usina Candiota 3 até 2040, com receita fixa, reativa os planos de privatização da Companhia Riograndense de Mineração (CRM) no Rio Grande do Sul.
O estado do Rio Grande do Sul está revitalizando os planos de privatização da Companhia Riograndense de Mineração (CRM), uma estatal fundamental para o fornecimento de carvão mineral a usinas termelétricas. Após um período de incertezas, a luz verde para a continuidade da operação da usina Candiota 3, principal cliente da mineradora, impulsiona novamente o processo de desestatização, com projeção de conclusão até o próximo ano.
Esse movimento representa um passo significativo para a agenda econômica gaúcha e para o futuro do setor de energia na região. A garantia de longo prazo para a Candiota 3, uma planta de 350 MW operada pela Âmbar Energia, do grupo J&F, eliminou um dos maiores entraves para a avaliação do valor de mercado da CRM e a atração de investidores em um cenário de crescente busca por energia limpa e sustentável.
Cenário de Desafios e Reviravolta Legislativa
A intenção de privatizar a CRM não é nova, remontando a 2019, quando o governador Eduardo Leite assinou leis que autorizavam a venda de importantes empresas estaduais, incluindo a própria CRM, a CEEE e a Sulgás. Contudo, a falta de segurança sobre o futuro da Candiota 3, que consome o carvão mineral extraído localmente pela CRM, fez com que o projeto perdesse fôlego. Os contratos de fornecimento eram renovados em prazos muito curtos, inviabilizando qualquer projeção de longo prazo e dificultando a avaliação do ativo.
A virada veio com a promulgação da Lei 15.269/2025. Essa legislação foi crucial ao assegurar a contratação de reserva de capacidade para usinas termelétricas a carvão que já possuíam contratos em vigor até 2022, garantindo a extensão de suas operações até o final de 2040 e a estabilidade de uma receita fixa. Este arcabouço legal conferiu a previsibilidade necessária para retomar os planos da CRM.
“Nós trabalhávamos com contratos precários, renovados a cada três meses. Sem a garantia de consumo do carvão, a empresa perdia seu principal ativo.”
A afirmação da secretária do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (Sema), Marjorie Kauffmann, ilustra a complexidade da situação. Ela enfatizou que era inviável definir um valuation justo para a empresa sem essa segurança contratual. Desde a sanção da lei, o foco tem sido otimizar a eficiência da CRM e solucionar pendências trabalhistas e ambientais, pavimentando o caminho para a fase de modelagem da privatização.
Próximos Passos e Visão para a Transição
Os estudos de modelagem para a desestatização ainda estão em fase inicial. O governo gaúcho já está em diálogo com instituições financeiras de peso, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), para definir o escopo detalhado do processo. A expectativa é que essa colaboração acelere as próximas etapas e a atração de potenciais investidores.
O governador Eduardo Leite projeta que os recursos arrecadados com a privatização da CRM serão estrategicamente investidos na região de Candiota. O objetivo principal é estimular novas vertentes econômicas, promovendo uma robusta transição econômica e reduzindo a dependência histórica do carvão mineral. Embora reconheça o declínio global do carvão para geração de energia, Leite sugere a exploração de outros usos para o mineral, como a produção de fertilizantes, com menor impacto ambiental. A CRM, uma sociedade de economia mista, possui impressionantes 2,5 bilhões de toneladas em reservas de carvão, o que sublinha seu potencial e a relevância estratégica dessa privatização para o futuro energético e econômico do estado.
A decisão de reativar a privatização da CRM, impulsionada pela estabilidade conferida à Candiota 3, marca um capítulo importante para o Rio Grande do Sul. Ela não apenas destrava um processo de desestatização pendente, mas também sinaliza um compromisso com a diversificação econômica da região e com a transição energética, mesmo que de forma gradual. Os próximos meses serão cruciais para a elaboração do modelo e a atração de investidores, delineando um novo horizonte para a mineração gaúcha em um contexto global de busca por fontes de energia limpa e sustentável, ao mesmo tempo em que se busca mitigar os impactos de uma economia tradicionalmente ligada ao carvão.























