A crescente eletrificação da frota brasileira deve elevar o desvio de demanda por combustíveis fósseis a 1,3 bilhão de litros até 2030, embora o impacto no consumo global seja ainda moderado.
A transição energética no setor de transportes brasileiro segue ganhando tração, com impactos diretos no mercado de energia. Um novo levantamento realizado pela consultoria StoneX aponta que o desvio da demanda por combustíveis do Ciclo Otto — que engloba gasolina e etanol — tende a dobrar nos próximos anos, atingindo 1,3 bilhão de litros até 2030.
Embora o volume impressione, ele representa uma parcela contida diante do consumo total do país, que deve alcançar cerca de 51 bilhões de litros em 2026. O estudo destaca que a transformação na matriz de mobilidade é um processo de longo prazo, sendo influenciado pela gradual adoção de veículos elétricos e modelos híbridos no território nacional.
Projeções para o setor de veículos eletrificados
De acordo com as estimativas da StoneX, a frota de veículos eletrificados no Brasil saltará dos atuais 510 mil para 1,7 milhão de unidades em 2030. Isso significaria que cerca de 4,7% da frota nacional (excluindo veículos a diesel) será composta por modelos com algum nível de eletrificação.
Entretanto, esse avanço não é sinônimo de uma queda imediata no consumo de combustíveis. A analista Letícia Corrêa, coautora do estudo, explica que a realidade da frota circulante impõe limites à substituição rápida:
“Ainda que a trajetória de crescimento dos eletrificados se confirme, o peso desse segmento na frota circulante total permanecerá reduzindo ao longo de toda a década.”
Renovação lenta e comportamento do mercado
Um dos fatores que impedem uma mudança drástica na demanda é o ritmo de renovação da frota, que apresenta uma taxa anual de sucateamento bastante tímida, variando entre 2% e 4%. Isso significa que muitos veículos movidos a combustão vendidos na última década continuarão rodando pelas ruas brasileiras em 2030.
Além disso, a especialista Letícia Corrêa pontua que a eletrificação não ocorre de maneira homogênea no país:
“O crescimento acelerado nos emplacamentos, portanto, não se traduz em substituição equivalente na frota em uso”, complementa, ressaltando a alta concentração de modelos eletrificados em regiões como o Sul e o Sudeste.
Impacto no consumo de combustíveis a longo prazo
A análise conduzida por Isabela Garcia reforça que, apesar das inovações tecnológicas, a demanda por combustíveis leves manterá uma trajetória de crescimento nos próximos anos. Um ponto crucial para essa projeção é a popularização dos veículos híbridos, que, embora mais eficientes, ainda dependem de combustíveis fósseis ou biocombustíveis para circular.
Para Isabela Garcia, o cenário é de uma transição estruturada e não de uma mudança disruptiva imediata:
“Dessa forma, o impacto sobre a demanda do Ciclo Otto se comporta como uma compressão gradual, não como uma ruptura da tendência da demanda observada até então.”
Em última análise, o estudo da StoneX consolida a visão de que, enquanto o Brasil vivencia um momento importante de adoção de tecnologias sustentáveis, o mercado de energia limpa e combustíveis ainda conviverá com o motor a combustão por um período considerável, exigindo um planejamento estratégico para a transição energética nacional.























