O Projeto de Transposição do Rio São Francisco exemplifica os riscos da desconsideração de limites ambientais na gestão hídrica. A negação de evidências científicas agrava a escassez de água no Nordeste.
Por João Suassuna Engenheiro Agrônomo, Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e Membro Titular da Academia Pernambucana de Ciência Agronômica e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica – ABCA.
Distribuído pelo Conselho Científico Agro Sustentável
A negação de evidências científicas no contexto da gestão de recursos hídricos implica riscos sistêmicos significativos, sobretudo em regiões historicamente marcadas pela escassez de água. O Projeto de Transposição do Rio São Francisco, concebido com o objetivo de abastecer aproximadamente 12 milhões de pessoas e irrigar cerca de 350 mil hectares no Nordeste setentrional, ilustra de forma emblemática as consequências da desconsideração de limites ambientais e diagnósticos técnicos consolidados.
Desde sua concepção, o projeto apresentou fragilidades estruturais, destacando-se a insuficiente consideração da capacidade volumétrica do rio frente a uma demanda hídrica crescente. Ainda persiste, em parcela da sociedade brasileira, a percepção equivocada de que os recursos hídricos do São Francisco são virtualmente inesgotáveis, o que contribui para práticas de uso indiscriminado. Contudo, evidências empíricas indicam que não há segurança hídrica suficiente na bacia para atender simultaneamente às múltiplas demandas existentes.
As mudanças climáticas, amplamente documentadas na literatura científica, associadas à degradação ambiental decorrente de ações antrópicas — como desmatamento, lançamento de efluentes e uso intensivo da água — têm provocado redução significativa da vazão do rio. Estimativas apontam uma diminuição de aproximadamente 35% nos últimos 50 anos, configurando um cenário de crescente vulnerabilidade hídrica e exigindo medidas urgentes de revitalização da bacia.
Planejamento
Esse diagnóstico não é recente. Em 2004, especialistas reunidos pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) já indicavam limitações críticas à viabilidade hídrica do projeto. À época, estimava-se uma vazão alocável de 360 m³/s, com 335 m³/s já comprometidos, restando apenas 25 m³/s disponíveis para a transposição — valor significativamente inferior à demanda média prevista de 65 m³/s, com picos de até 127 m³/s.
Diante dessa limitação, a operação inicial do sistema foi realizada com vazões reduzidas, sendo 11 m³/s no Eixo Leste e 14 m³/s no Eixo Norte. A complementação da vazão dependeria do uso de volumes armazenados na represa de Sobradinho, condicionada a níveis próximos de sua capacidade máxima. Entretanto, estudos indicam que tais condições ocorrem em apenas cerca de 40% dos anos hidrológicos, o que evidencia a inconsistência entre o planejamento do projeto e a disponibilidade hídrica real.
Importa ressaltar que eventos de seca não constituem a causa primária da crise hídrica na bacia, mas sim fatores que intensificam problemas estruturais relacionados à gestão inadequada dos recursos hídricos, especialmente no que se refere à exploração de aquíferos no médio curso da bacia. A regulação artificial das vazões, após a construção de barragens como Três Marias e Sobradinho, alterou significativamente o regime hidrológico do rio, reduzindo sua vazão média na foz de aproximadamente 2.850 m³/s para cerca de 1.850 m³/s, com tendência de declínio.
Conflitos
Esse novo regime tem gerado conflitos distributivos e operacionais. No Eixo Norte da transposição, por exemplo, a alocação de água entre estados revelou tensões políticas e inconsistências técnicas, incluindo a previsão de expansões de vazão incompatíveis com a disponibilidade hídrica. Ademais, princípios fundamentais de gestão integrada, como a sinergia entre reservatórios, não foram plenamente observados, resultando em prejuízos a sistemas locais de abastecimento.
A intensificação da atividade agrícola na região do MATOPIBA, com destaque para a exploração do aquífero Urucuia — essencial para a recarga do São Francisco —, tem agravado o rebaixamento do nível freático e a redução das vazões de base. Esse processo contribuiu para episódios críticos, como o registrado entre 2015 e 2017, quando o reservatório de Sobradinho atingiu níveis próximos de 1% de sua capacidade.
Os impactos da redução da disponibilidade hídrica também se manifestam em outros setores. Na geração de energia, usinas hidrelétricas operam abaixo de sua capacidade instalada devido à insuficiência de vazão. Na foz do rio, observa-se o avanço da cunha salina, comprometendo o abastecimento urbano. Ecossistemas aquáticos são igualmente afetados, com prejuízos à reprodução de espécies e à biodiversidade, agravados pela ausência de mecanismos adequados ao trânsito de peixes.
Adicionalmente, a poluição hídrica decorrente do lançamento de esgotos urbanos compromete a qualidade da água, ampliando os desafios de abastecimento. Aspectos socioculturais também são impactados, como evidenciado pela necessidade de intervenções artificiais para viabilizar manifestações tradicionais dependentes do regime natural do rio.
Abordagem sistêmica
Diante desse panorama, torna-se evidente a inexistência de segurança hídrica suficiente na bacia do Rio São Francisco para sustentar, de forma equilibrada, suas múltiplas demandas. Impõe-se, portanto, a necessidade de um planejamento rigoroso e integrado, que estabeleça prioridades claras de uso da água e incorpore mecanismos de adaptação às variabilidades climáticas.
Mais do que intervenções pontuais, é fundamental adotar uma abordagem sistêmica que articule gestão, planejamento e revitalização da bacia hidrográfica. A sustentabilidade do Rio São Francisco depende de uma mudança paradigmática, que substitua a lógica de exploração intensiva por uma cultura de uso racional e convivência com os limites ecológicos do recurso hídrico.
O artigo é opinião pessoal do acadêmico e não necessariamente reflete a opinião da ABCA.
Mini Currículo de João Suassuna
Engenheiro agrônomo, pesquisador titular da Fundação Joaquim Nabuco e membro efetivo das Academias Pernambucana e Brasileira de Ciência Agronômica. Especialista em questões de convivência com o Semiárido, destaca-se por apresentar propostas concretas para mudar a relação do homem nordestino com seu ambiente natural. Defensor da ideia de que não é necessário transformar o Semiárido, mas sim se adaptar a ele, João Suassuna propõe inovações para a prática de convivência na agricultura, pecuária e, sobretudo, para o uso da água na região. Destaca-se também por seu conhecimento sobre a hidrologia do Nordeste semiárido, posicionando-se contrário à transposição das águas do Rio São Francisco.





















