Conhecimento em Constante Evolução
Por José Velloso – SP
O debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 tem ganhado destaque no Congresso Nacional. A justificativa principal é que, com o avanço das novas tecnologias e supostos ganhos de produtividade, seria possível diminuir as horas trabalhadas. Além disso, estudos mostram que o mercado de trabalho brasileiro já apresenta muitas jornadas que ultrapassam 40 horas semanais.
Contudo, ao observar a realidade da produção no Brasil, fica claro que a automação ainda está longe de ser robusta o suficiente para sustentar essa mudança. A base tecnológica atual não justifica a diminuição das horas de trabalho da forma como é proposta.
O Desafio Tecnológico
Para entender melhor, basta olhar para os indicadores internacionais de avanço tecnológico, que mostram a dimensão do nosso desafio. Enquanto países líderes usam centenas de robôs e modernizam seus processos produtivos, o Brasil está na parte de baixo da escala tecnológica, com apenas 10 robôs para cada 10 mil trabalhadores. Isso é muito menos que a média mundial de 162 robôs e distante de nações como Estados Unidos, Alemanha, China e Coreia do Sul.
Essa diferença tecnológica faz parte de um problema ainda maior: temos pouco capital produtivo (máquinas, equipamentos, infraestrutura) por trabalhador.
Baixa Produtividade no Brasil
Estimativas comparativas revelam que o Brasil possui apenas cerca de 35% do capital produtivo que os Estados Unidos têm. Isso explica por que a produtividade do trabalho brasileira é aproximadamente um quarto da norte-americana.
Em um cenário com pouco investimento, custos altos para obter capital e incertezas que impedem a modernização, a produção continua muito dependente do esforço humano. Isso limita os ganhos de eficiência e torna arriscada qualquer redução da jornada de trabalho que não esteja ligada a um aumento real da produtividade.
Impactos da Produtividade
Esse cenário estrutural ajuda a entender por que a produtividade no país tem sido historicamente baixa, colocando o Brasil em posições desfavoráveis nos rankings internacionais. De fato, o Brasil ocupa o 100º lugar no ranking de produtividade do trabalho da OIT (Organização Internacional do Trabalho).
Reduzir a jornada de trabalho sem resolver esse problema fundamental não é uma política social sustentável. Na verdade, o aumento dos custos de mão de obra para as empresas pode, a médio e longo prazo, levar à redução de postos de trabalho, especialmente em setores que competem internacionalmente, pois o país perderia ainda mais sua competitividade.
Expansão do Investimento Produtivo
Estudos mostram que jornadas de trabalho superiores a 40 horas são mais comuns em ocupações que exigem menor qualificação e oferecem menor remuneração. Essas atividades geralmente estão em serviços pessoais, comércio e operações diversas.
Nesses segmentos, aumentar o custo da mão de obra pode gerar pressão sobre os preços, as margens de lucro das empresas ou até mesmo diminuir o nível de formalização dos empregos. Isso exigiria a continuidade de políticas monetárias para controlar a inflação e medidas para evitar impactos negativos no emprego e na renda, especialmente nas pequenas empresas, que empregam milhões de pessoas e têm menos capacidade de absorver mudanças rápidas.
Diante disso, implementar a redução da jornada de trabalho sem antes resolver os problemas estruturais que causam a baixa produtividade do país é como tratar apenas o sintoma, e não a verdadeira causa.
O caminho real para ter jornadas menores e salários maiores é expandir o investimento produtivo e modernizar tecnologicamente. Um país com uma indústria que produz bens mais complexos tende a absorver serviços mais sofisticados e, consequentemente, a remunerar melhor seus trabalhadores.
Essa é a maneira de tirar o Brasil da “armadilha da renda média” e de avançar rumo ao desenvolvimento econômico sustentável.
Avanços sociais duradouros não nascem de decretos, mas sim de um crescimento constante da capacidade de produzir mais e com mais qualidade. Países que hoje têm jornadas de trabalho menores alcançaram esse estágio após décadas de acumulação de capital, ampla difusão de tecnologia e aumento contínuo da produtividade.
O Brasil ainda precisa percorrer esse caminho. Somente ao remover os obstáculos que limitam o investimento, a eficiência e a formalização será possível reduzir as jornadas de forma responsável, aumentando o bem-estar da população sem prejudicar o emprego, a competitividade ou o crescimento econômico.
(José Velloso é engenheiro mecânico, administrador de empresas e presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos)
Visão Geral
Em suma, a proposta de reduzir a jornada de trabalho no Brasil é debatida em um cenário onde a produtividade e a tecnologia ainda são limitadas. Apesar da atratividade da ideia, a realidade produtiva do país mostra um déficit de automação e um baixo investimento em capital produtivo. Essa lacuna tecnológica se reflete em uma produtividade do trabalho significativamente inferior à de nações desenvolvidas. Implementar a redução da jornada sem resolver esses problemas estruturais pode gerar aumento de custos, perda de competitividade e até mesmo redução de empregos, especialmente em setores menos qualificados e pequenas empresas. O caminho para jornadas mais curtas e salários melhores passa, portanto, pela modernização tecnológica e pela expansão do investimento produtivo, pilares fundamentais para um desenvolvimento social e econômico duradouro e sustentável.
Créditos: Misto Brasil






















