A consultoria Rystad Energy alerta que a demanda por combustíveis fósseis será resiliente até 2040, desafiando a urgência das metas climáticas atuais.
Conteúdo
- Introdução Desafiadora para a Transição Energética
- Gás Natural como Âncora da Resiliência Fóssil
- A Longa Cauda do Petróleo e o Desafio do Carvão
- Investimentos em Renováveis: A Corrida Contra o Tempo
- A Dualidade da Demanda: Países Ricos vs. Países em Desenvolvimento
- Visão Geral
Introdução Desafiadora para a Transição Energética
O discurso da transição energética tem sido pautado pela urgência e pela iminente queda na demanda global por fósseis. No entanto, a realidade do mercado de energia aponta para um cenário menos otimista. Em um alerta direto aos players do setor elétrico, a Rystad Energy, uma das consultorias mais respeitadas do mundo, jogou um balde de água fria nas projeções mais radicais. Segundo seu Vice-Presidente, a demanda global por fósseis não apenas persistirá, mas se manterá notavelmente resiliente até, pelo menos, 2040.
Essa resiliência não significa crescimento indefinido, mas sim uma curva de declínio muito mais suave do que a necessária para cumprir as metas climáticas mais ambiciosas. Para os profissionais focados em energia limpa e descarbonização, o aviso da Rystad Energy é um chamado à ação: a transição energética será inevitável, mas sua velocidade dependerá de um esforço de investimento muito maior em investimentos em renováveis.
Gás Natural como Âncora da Resiliência do Gás Natural
A principal força por trás dessa resiliência do gás natural é a commodity. O gás natural emerge como o grande pilar que estenderá o domínio dos combustíveis fósseis até o horizonte de 2040. Enquanto o pico do petróleo e o declínio do carvão podem ocorrer mais cedo, o gás continuará a ganhar espaço, sobretudo nos setores industriais e de geração de eletricidade.
A Rystad Energy argumenta que a necessidade de substituir o carvão – a fonte fóssil mais poluente – em países em desenvolvimento garante uma forte demanda global por fósseis na forma de gás. O gás natural, sendo menos intensivo em carbono, atua como o combustível de transição prático e mais barato, preenchendo as lacunas de intermitência das fontes solar e eólica.
Essa tendência é particularmente evidente no mercado de GNL (Gás Natural Liquefeito). O aumento da capacidade de liquefação e regaseificação, impulsionado pela segurança energética global, torna o gás natural acessível a mais nações, garantindo sua relevância e, portanto, a resiliência do gás natural no mix energético.
A Longa Cauda do Petróleo e o Desafio do Carvão
Analisando os componentes da demanda global por fósseis, a Rystad Energy separa as trajetórias. O petróleo deve atingir seu pico do petróleo de consumo em meados da década de 2030, impulsionado principalmente pelo setor de transportes, que só será totalmente descarbonizado após a massificação global dos veículos elétricos. Além disso, o uso não energético do petróleo, como na indústria petroquímica, cresce, garantindo uma demanda residual robusta.
O carvão é a exceção na transição energética dos países desenvolvidos, mas permanece forte em economias emergentes. A Ásia, por exemplo, ainda depende intensamente do carvão para a geração de base. A Rystad Energy estima que a redução da demanda por carvão será mais rápida onde há infraestrutura para substituí-lo por gás natural e energia limpa, mas essa substituição é lenta e cara em regiões com restrições financeiras.
Para o setor elétrico brasileiro, essa dinâmica global significa que, embora a matriz nacional seja limpa, os preços do gás e do petróleo, que influenciam o custo dos combustíveis de backup (térmicas), continuarão voláteis e altos, afetando o custo marginal de liquidação (PLD).
Investimentos em Renováveis: A Corrida Contra o Relógio
Se a demanda global por fósseis se mantém resiliente, o problema reside na taxa insuficiente de investimentos em renováveis. O VP da Rystad Energy é enfático: para que o mundo consiga reverter essa resiliência e atingir as metas de 1.5ºC, o volume de investimentos em renováveis precisa ser significativamente acelerado, dobrando ou até triplicando em alguns setores nos próximos anos.
A energia limpa precisa se tornar ainda mais competitiva e acessível. O principal obstáculo não é mais a tecnologia, mas sim o financiamento, a burocracia e a infraestrutura de transmissão. O setor elétrico global deve focar não apenas em construir mais parques solares e eólicos, mas também em soluções de armazenamento (baterias) para garantir a firmeza da energia limpa.
A resiliência dos fósseis é um reflexo da nossa inabilidade atual de escalar a descarbonização em todos os setores de forma rápida e coordenada. Portanto, o desafio é transformar os planos em projetos concretos de energia competitiva que possam, de fato, derrubar a dependência do gás antes de 2040.
A Dualidade da Demanda: Países Ricos vs. Países em Desenvolvimento
A Rystad Energy destaca uma clara dualidade regional. Nos países da OCDE e na Europa, a transição energética está em ritmo acelerado, com a demanda global por fósseis já em declínio acentuado. Regulamentações rígidas e altos investimentos em renováveis garantem esse movimento.
No entanto, o crescimento populacional e a busca por desenvolvimento econômico na Ásia e na África garantem a resiliência do gás natural e do carvão. Esses países priorizam o acesso rápido e acessível à energia para tirar milhões de pessoas da pobreza energética, muitas vezes optando por infraestrutura fóssil de baixo custo.
Para a descarbonização ser global, é imperativo que os países desenvolvidos aumentem os investimentos em renováveis e transfiram tecnologia para as economias emergentes. Apenas oferecendo energia limpa que seja comprovadamente mais competitiva e confiável do que os fósseis será possível mudar a curva de demanda global por fósseis a tempo.
Visão Geral
A projeção da Rystad Energy de que a demanda global por fósseis seguirá resiliente até 2040 não é um convite ao desânimo, mas sim um apelo ao realismo no planejamento. O setor elétrico, especialmente os players de energia limpa no Brasil, devem usar essa informação para afinar suas estratégias.
O gás natural será um competidor de peso por mais tempo do que o desejado. Isso significa que as inovações em energia competitiva e investimentos em renováveis devem visar não apenas a substituição das térmicas a gás, mas também a redução de custos para torná-las economicamente inviáveis em um futuro próximo.
A transição energética é uma maratona, não um sprint. A resiliência dos fósseis nos próximos 15 anos exige que cada investimento em descarbonização seja maximizado. O alerta da Rystad Energy é claro: o futuro é da energia limpa, mas a luta pela velocidade da descarbonização está longe de terminar.























