O operador do sistema português aponta o caminho: investir urgentemente em baterias e reforçar as ligações elétricas para garantir a segurança energética na transição verde.
Conteúdo
- Visão Geral
- A Crise de Sucesso e a Necessidade de Equilíbrio
- Pilar 1: O Armazenamento de Energia como Backup e Escudo
- Pilar 2: A Interconexão como Mercado Comum de Estabilidade
- O Desafio da Remuneração e a Segurança Jurídica
- A Lição de Portugal para o Setor Elétrico Brasileiro
Visão Geral
Portugal, líder em geração renovável, enfrenta a volatilidade das renováveis, exigindo foco do operador do sistema em Armazenamento e Interconexão para manter a segurança do sistema.
A Crise de Sucesso e a Necessidade de Equilíbrio
Portugal é um estudo de caso em aceleração verde. Quando o vento sopra forte ou o sol brilha intensamente, o sistema gera muito mais energia limpa do que o necessário, resultando em preços negativos (despacho descendente) ou, pior, no desperdício de geração renovável. Nos momentos de calmaria e pico de consumo, o sistema precisa acionar termelétricas caras e poluentes (despacho ascendente).
Essa oscilação desenfreada é a volatilidade das renováveis em sua forma mais pura. O operador do sistema elétrico, responsável por manter a frequência e a tensão estáveis, está sob pressão constante. Sem soluções robustas, o custo marginal do sistema sobe, comprometendo a eficiência econômica da transição energética.
A solução não pode ser diminuir o ritmo das renováveis, mas sim integrá-las de forma inteligente. Por isso, os dois pilares estratégicos – Armazenamento e Interconexão – tornam-se a política de Estado para domar essa volatilidade.
Pilar 1: O Armazenamento de Energia como Backup e Escudo
O armazenamento de energia é a primeira linha de defesa contra a volatilidade. Ele permite que o excedente de energia limpa produzido em momentos de baixa demanda seja guardado e injetado na rede durante os picos ou quando a geração eólica/solar cai abruptamente.
Historicamente, Portugal depende das Usinas de Armazenamento por Bombeamento (PHS), essencialmente grandes hidrelétricas reversíveis. Elas usam a eletricidade excedente para bombear água para um reservatório superior, criando uma “bateria hídrica”.
No entanto, a PHS é limitada geograficamente e tem tempo de resposta mais lento. É aí que entram os BESS (*Battery Energy Storage Systems*). O operador do sistema lusitano incentiva o investimento em baterias de grande escala, que oferecem resposta quase instantânea, crucial para a regulação de frequência e a estabilidade de curto prazo.
Os BESS podem ser instalados em subestações ou junto aos parques de geração renovável, otimizando a eficiência da rede. Eles atuam como um *buffer* digital, absorvendo e liberando energia em milissegundos, garantindo a segurança do sistema durante as rampas de variação das fontes intermitentes.
Pilar 2: A Interconexão como Mercado Comum de Estabilidade
O segundo pilar é a interconexão reforçada com os vizinhos europeus. Portugal faz parte da Península Ibérica, onde o operador do sistema trabalha em coordenação com a Espanha. No entanto, o verdadeiro salto é a interconexão da Península Ibérica com o restante da Europa (principalmente via França).
A interconexão funciona como um vasto sistema de armazenamento virtual. Quando Portugal tem excesso de energia limpa, ele a vende para a Espanha ou França. Quando a geração cai, ele importa o déficit. Isso aumenta a segurança energética ao diversificar a origem e o destino da eletricidade.
Um aumento na capacidade instalada de interconexão permite que Portugal maximize o valor de sua geração renovável, eliminando a necessidade de desligar parques eólicos ou solares em momentos de excedente. O operador do sistema português vê a Península como um grande *hub* de energia limpa para o continente.
O desafio da interconexão é político e técnico. Exige investimento em novas linhas de transmissão de alta tensão, alinhamento regulatório entre países e, crucialmente, um preço justo pelo serviço de segurança do sistema que a Península oferece à Europa Central.
O Desafio da Remuneração e a Segurança Jurídica
Para que as soluções de Armazenamento e Interconexão saiam do papel, o mercado precisa de segurança jurídica e previsibilidade econômica. Quem paga pela bateria que só é usada algumas horas por dia? E como remunerar o operador do sistema pelo serviço de equilíbrio?
A regulamentação portuguesa está se adaptando para criar mecanismos de remuneração para a flexibilidade. Isso inclui leilões de capacidade específicos para armazenamento e serviços ancilares para interconexão, garantindo que o investimento em infraestrutura de estabilidade seja rentável.
O operador do sistema está advogando por regras que tratem o armazenamento não apenas como geração, mas como um ativo de infraestrutura essencial, que confere maior confiabilidade ao sistema de forma sistêmica.
A Lição de Portugal para o Setor Elétrico Brasileiro
A realidade portuguesa é um espelho do futuro do Sistema Interligado Nacional (SIN). O Brasil possui a vantagem de grandes hidrelétricas, que já atuam como PHS natural, mas a crescente penetração de solar e eólica (intermitentes) exige soluções complementares.
O Brasil precisa urgentemente replicar o foco de Portugal: investimento maciço em BESS em pontos estratégicos da rede de transmissão e, principalmente, fortalecer as interconexões regionais e até internacionais (com Argentina e Paraguai) para otimizar o uso de nossa vasta geração renovável.
A volatilidade das renováveis não é um erro, mas uma característica. A eficiência e a segurança energética do futuro dependem de nossa capacidade de domesticar essa energia, usando armazenamento para guardar o excesso e interconexão para compartilhá-lo de forma inteligente. Portugal mostra o caminho: a transição energética é 50% geração e 50% estabilidade.






















