A extensão da vida útil da maior termelétrica a carvão da América Latina reacende o debate sobre segurança energética e descarbonização no Brasil.
Conteúdo
- O Gigante de Santa Catarina e a Segurança do SIN
- O Debate da Transição Energética Justa
- Custo da Confiança: Tarifa e Mercado
- A Geopolítica do Carvão no Sul
- O Futuro: Hidrogênio e Descarbonização Futura
- Visão Geral
O Gigante de Santa Catarina e a Segurança do SIN
O Complexo Jorge Lacerda é, de fato, um pilar da geração térmica do Sul do país. Sua capacidade de fornecer energia firme — aquela que pode ser despachada a qualquer momento — é um fator de peso, especialmente em períodos de estresse hídrico, como os que o Brasil tem enfrentado com maior frequência. A extensão de 15 anos transforma a projeção de descomissionamento, assegurando que a usina cumpra seu papel de “back-up” confiável.
Para os operadores do sistema, a estabilidade é rainha. Fontes próximas ao planejamento energético indicam que a retirada abrupta de fontes despacháveis, como o carvão, sem o correspondente volume de fontes renováveis despacháveis (que ainda são limitadas, como a biomassa ou o gás natural), representa um risco inaceitável à estabilidade do SIN.
O Debate da Transição Energética Justa
A decisão, contudo, não é bem recebida por todos. O setor de energia limpa e os grupos ambientais veem a prorrogação como um passo atrás, em dissonância com os compromissos climáticos internacionais assumidos pelo Brasil, como os firmados na COP. A sustentabilidade da matriz energética é colocada em xeque quando se prolonga a vida útil de uma fonte com alta emissão de gases de efeito estufa (GEE).
A narrativa que se constrói no setor é a da “Transição Energética Justa”. A Associação Brasileira do Carbono Sustentável (ABCS), por exemplo, celebra a medida como fundamental para este conceito. Eles argumentam que a prorrogação garante que a desativação do carvão ocorra de forma planejada, protegendo empregos e a infraestrutura econômica regional, em vez de um fechamento abrupto.
Custo da Confiança: Tarifa e Mercado
Do ponto de vista econômico, o carvão oferece previsibilidade de custo operacional, contrastando com a volatilidade dos preços do gás natural e a intermitência da solar e eólica. Manter uma fonte despachável permite ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) gerenciar melhor os custos de despacho, evitando acionamentos caríssimos de termelétricas a gás em momentos de pico de demanda.
Profissionais do mercado de comercialização de energia apontam que a previsibilidade de lastro térmico reduz o risco de mercado e, consequentemente, os prêmios de risco incorporados às tarifas, que são repassados ao consumidor final. O dilema aqui é clássico: segurança e previsibilidade versus descarbonização acelerada.
A Geopolítica do Carvão no Sul
O foco geográfico é importante. A decisão afeta diretamente a cadeia produtiva do carvão mineral no Sul do Brasil, concentrada majoritariamente em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A renovação da licença injeta fôlego econômico em uma região historicamente dependente dessa commodity para sua geração de eletricidade.
É crucial entender que esta não é a única notícia do gênero. Pesquisas indicam que existem outras nove usinas térmicas a carvão em operação no SIN. A prorrogação de Jorge Lacerda pode sinalizar uma tendência regulatória de estender o prazo para outras unidades, especialmente aquelas com menor intensidade de emissões ou que são vitais para a infraestrutura regional.
O Futuro: Hidrogênio e Descarbonização Futura
A longevidade do complexo até 2040, contudo, não significa estagnação tecnológica. A indústria do carvão tem investido em modernizações para reduzir as emissões e, em um horizonte mais distante, em projetos piloto de captura de carbono ou na conversão para o uso de hidrogênio verde.
A capacidade da maior termelétrica a carvão de se adaptar ou migrar suas tecnologias será o teste definitivo de sua relevância na segunda metade da década de 2030. Por ora, o setor de energia renovável observa a decisão como um lembrete pragmático: o caminho para a neutralidade de carbono exige paciência estratégica, especialmente quando a segurança do suprimento está em jogo. A luz acesa em Santa Catarina por mais 15 anos é um farol de estabilidade em um mar de incertezas climáticas e regulatórias.
Visão Geral
A decisão de estender a operação do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda por mais 15 anos, até 2040, reflete a tensão entre a necessidade imediata de garantir a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN) e os objetivos de longo prazo da transição energética. Enquanto a prorrogação assegura o fornecimento de energia firme e previsibilidade de lastro térmico, ela intensifica o debate sobre a sustentabilidade da matriz, colocando em xeque os compromissos climáticos e impulsionando a discussão sobre uma “Transição Energética Justa” que contemple impactos regionais e econômicos.
























