A gigante petroquímica Braskem defende que o Brasil deve inverter a lógica do setor elétrico, priorizando a demanda do consumidor para acelerar investimentos em energia limpa e descarbonização.
Conteúdo
- O Paradigma Insustentável do Supply-Push
- A Tese da Braskem: O Consumidor Puxa a Oferta
- O Mercado Livre de Energia: O Motor da Mudança
- Políticas Públicas para Incentivar a Demanda
- Visão Geral
O setor elétrico brasileiro está em um momento de inflexão, mas a velocidade da transição energética ainda é ditada por um modelo de planejamento que muitos consideram obsoleto. A Braskem, gigante petroquímica e uma das maiores consumidoras de energia do país, lançou um desafio direto aos reguladores: o Brasil precisa inverter lógica e parar de empurrar a oferta de novas energias por meio de leilões e mandatos, incentivando que o consumidor puxe essa oferta pela demanda.
Essa tese, defendida por executivos da Braskem em fóruns recentes, sugere uma revolução. O modelo atual, *supply-push* (empurrado pela oferta), favorece grandes projetos centralizados, muitas vezes de capital estatal ou regulado. A nova visão, *demand-pull* (puxado pela demanda), transfere o poder de decisão e o ímpeto inovador para o mercado, onde o consumidor, especialmente o consumidor industrial, se torna o principal agente de investimentos e descarbonização.
O Paradigma Insustentável do Supply-Push
Por décadas, o setor elétrico brasileiro operou sob uma lógica verticalizada e centralizada. O governo planejava a demanda futura, promovia leilões de energia, e o capital privado (ou misto) construía as usinas, quase sempre garantidas por contratos de longo prazo. Este modelo foi eficaz para expandir a capacidade de rede em um período de escassez, mas falha miseravelmente na era da energia limpa e da descentralização.
A Braskem critica que, ao focar apenas na oferta de novas energias via leilões, o sistema ignora a necessidade de inovação e flexibilidade exigida pela transição energética. Esse planejamento centralizado é lento para reagir a novas tecnologias, como o armazenamento de energia (BESS) ou o Hidrogênio Verde (H2V), que são impulsionadas por demandas específicas da indústria, e não por *benchmarks* estatais.
Manter a lógica antiga significa perpetuar a ineficiência. Os custos de inércia do sistema acabam sendo embutidos nas tarifas, penalizando o consumidor final. O Brasil precisa inverter lógica para que o preço do MWh reflita a real competitividade das energias renováveis, e não os custos de um sistema rígido e subsidiado.
O setor elétrico moderno exige agilidade. A fonte renovável não espera anos por um leilão. A demanda industrial por rastreabilidade e energia limpa com certificação (como I-RECs) é imediata. Portanto, a oferta de novas energias deve ser uma resposta direta e rápida às necessidades do consumidor, e não um evento programado de Brasília.
A Tese da Braskem: O Consumidor Puxa a Oferta
A Braskem é um exemplo de como a inversão da lógica pode funcionar. A empresa, com metas agressivas de descarbonização, busca ativamente parcerias com fornecedores que garantam energia limpa e rastreável. Ao demandar energia específica, a Braskem *puxa* o investimento privado em novas energias, como grandes parques eólicos e solares, fora da esfera dos leilões obrigatórios.
O consumidor industrial, ao exigir energia limpa com certificação ESG, não apenas cumpre suas próprias metas, mas cria o sinal de preço para o setor elétrico. Esse sinal é muito mais poderoso e ágil do que qualquer incentivo regulatório. Ele força os geradores a buscarem tecnologia mais eficiente e a comprovarem a origem renovável da energia.
Para a Braskem, a inverter lógica é uma questão de competitividade. A empresa atua em mercados globais onde a sustentabilidade da cadeia de suprimentos é um diferencial. Ao ter o poder de puxar a oferta de novas energias, ela garante o suprimento a preços competitivos e com os atributos ambientais necessários para exportar produtos de baixo carbono.
Um exemplo prático é o investimento da Braskem em uma nova caldeira elétrica na unidade de Paulínia (SP), visando cortar custos e emissões. Essa decisão de eletrificar a produção é um ato de demanda que força o suprimento de energia limpa no Mercado Livre. Esse tipo de investimento em energia é o que o Brasil precisa para descarbonizar sua indústria de base.
O Mercado Livre de Energia: O Motor da Mudança
A defesa da Braskem pela inverter lógica se alinha perfeitamente com a abertura e a expansão do Mercado Livre de Energia. Este é o ambiente onde o consumidor exerce seu poder de escolha, contratando diretamente o gerador e definindo o mix de energia desejado.
A abertura total do mercado é a política pública mais eficaz para garantir que o consumidor puxe a oferta de novas energias. Quando pequenas e médias empresas tiverem acesso à contratação direta de energia limpa, a pressão por investimento em geração distribuída (GD) e energia renovável de grande escala será exponencial.
O desafio regulatório, no entanto, é garantir que essa abertura não seja sufocada por subsídios cruzados e encargos que distorcem o preço. A Braskem e outras indústrias pressionam para que o setor elétrico elimine os penduricalhos na tarifa que financiam ineficiências históricas, pois eles mascaram a competitividade real da energia limpa.
A Geração Distribuída, por exemplo, embora seja um sucesso popular, ainda sofre com regras que se baseiam em subsídios. A lógica do *demand-pull* sugere que a GD deve prosperar por sua eficiência econômica e proximidade com o consumidor, e não por incentivos tarifários que oneram o sistema.
Políticas Públicas para Incentivar a Demanda
Para que o Brasil precisa inverter lógica na prática, as políticas públicas devem evoluir. Não basta apenas liberar o mercado; é preciso dar ferramentas ao consumidor para que ele possa puxar a oferta de novas energias de forma eficaz.
1. Rastreabilidade e Certificação: O governo precisa consolidar um registro central de atributos ambientais, como o defendido pela CCEE, para evitar a duplicidade de certificados de energias de baixo carbono. O consumidor só investirá em energia limpa se tiver total segurança de sua origem.
2. Incentivo a Tecnologia Disruptiva: É necessário criar mecanismos de flexibilização regulatória para investimentos em armazenamento de energia e H2V. O BESS, por exemplo, é crucial para tornar a energia renovável despachável e atrair a demanda industrial, garantindo a segurança energética.
3. Desonerar a Transição: A inverter lógica exige a desvinculação gradual dos subsídios da CDE e a redução dos encargos setoriais sobre as tarifas. Se o preço da energia for transparente e justo, o consumidor naturalmente migrará para a oferta de novas energias mais competitivas, ou seja, as limpas.
A Braskem argumenta que a regulamentação deve atuar como facilitadora da demanda, e não como planejadora da oferta. Isso significa permitir que o consumidor tenha maior controle sobre sua própria infraestrutura de energia, incluindo a autogeração e a cogeração eficiente, sem que isso implique em custos extras para o sistema.
Visão Geral
A proposta da Braskem de que o Brasil precisa inverter lógica e incentivar que o consumidor puxe a oferta de novas energias é um apelo ao pragmatismo. O país, já líder em energia renovável, pode acelerar sua transição energética ao usar a força do seu vasto mercado consumidor e industrial.
Se o setor elétrico conseguir se desvencilhar do excesso de intervenção centralizada e priorizar a escolha do consumidor, a oferta de novas energias (como a solar, eólica e o H2V) será impulsionada por investimentos privados mais rápidos e resilientes. A lógica de mercado, quando bem regulada, é o melhor atalho para a descarbonização.
O futuro da segurança energética e da competitividade industrial brasileira depende dessa inversão. Ao colocar o consumidor no comando da demanda, o setor elétrico garante que a transição energética seja econômica, ágil e sustentável. A Braskem sinaliza o caminho: a próxima grande onda de investimentos em energia limpa será puxada por quem paga a conta.






















