A expansão da geração distribuída no Brasil aponta um crescimento expressivo até 2035, trazendo consigo desafios significativos para a operação e modernização da rede elétrica nacional.
A capacidade de micro e minigeração distribuída (MMGD) no Brasil deve saltar de 20,25 GW registrados em 2025 para 97,8 GW em 2035, segundo projeções oficiais do setor.
Hoje, a geração distribuída já representa cerca de 5,6% da geração total de eletricidade do país — participação que tende a crescer de forma acelerada na próxima década. O avanço, puxado principalmente pela energia solar em telhados residenciais e comerciais, consolida a transição energética, mas também impõe desafios estruturais importantes.
Desafios Estruturais da Expansão da Geração Solar
A expansão da MMGD ocorre sem crescimento proporcional da demanda, o que altera a dinâmica de operação do sistema elétrico. Um ponto crucial é a concentração da geração solar no meio do dia, que coincide com os períodos de menor consumo em certas áreas, e a subsequente queda abrupta no fim da tarde, quando a demanda residencial aumenta rapidamente. Essa variação exige maior acionamento de outras fontes de energia para suprir a lacuna.
Esse cenário aumenta a necessidade de flexibilidade operativa do sistema. A gestão eficiente dessa intermitência amplia o debate sobre a implementação de soluções de armazenamento de energia e a urgente modernização das redes de distribuição para que possam absorver e gerenciar o fluxo bidirecional de eletricidade de forma segura e confiável.
Impacto nos Cortes de Geração
Além das questões operacionais diárias, as projeções indicam que podem se intensificar os chamados cortes de geração (ou *curtailment*). Esse fenômeno ocorre quando a geração excede a capacidade de escoamento ou consumo da rede em determinado momento, forçando a redução da produção das fontes disponíveis, como os painéis solares.
A intensificação do *curtailment* pressiona significativamente as distribuidoras e os operadores do sistema. Eles precisam investir em infraestrutura e em tecnologias de previsão mais apuradas para evitar perdas energéticas e garantir a estabilidade do fornecimento. Este é um reflexo direto da alta penetração da fonte solar na matriz em horários específicos.
A Necessidade de Flexibilidade Operativa
Para lidar com a intermitência trazida pela geração distribuída, a palavra-chave passa a ser flexibilidade. O sistema elétrico brasileiro, historicamente desenhado para um fluxo unidirecional, precisa se adaptar rapidamente a um modelo onde milhares de pontos injetam energia na rede. Isso requer investimentos em digitalização e em tecnologias de resposta rápida, como usinas termelétricas de partida ágil ou sistemas de baterias em escala.
A capacidade de acionar ou desligar fontes de forma quase instantânea é vital para compensar a variabilidade da irradiação solar. A ausência dessa flexibilidade operacional pode levar a instabilidades de tensão e frequência, comprometendo a qualidade do fornecimento elétrico para todos os consumidores.
O Papel do Armazenamento de Energia
O armazenamento de energia surge como uma solução fundamental para mitigar os picos e vales da geração solar. Baterias de grande escala poderiam absorver o excedente de energia produzido durante o dia e liberá-lo no final da tarde, justamente quando a demanda cresce e a geração solar diminui. Essa capacidade de deslocar a energia armazenada suavizaria a rampa de subida da demanda noturna.
A integração efetiva de sistemas de armazenamento na infraestrutura existente é complexa e exige regulamentação clara e incentivos econômicos. A expectativa é que, à medida que os custos das tecnologias de baterias continuem a cair, elas se tornem uma parte integrante da arquitetura do sistema elétrico brasileiro para suportar o crescimento da MMGD.























