Um estudo aponta que a descarbonização acelerada do Setor Elétrico brasileiro, sem a inclusão de térmicas novas, pode elevar os custos da expansão em até 70%.
### Conteúdo
* O Custo Oculto da Flexibilidade
* Por Que a Necessidade de Térmicas Novas?
* O Paradoxo da Geração Renovável e a Vulnerabilidade Hídrica
* Implicações Políticas e de Planejamento
* Visão Geral
O Custo Oculto da Flexibilidade
O aumento de custar 70% mais não se deve à Geração Renovável em si, que tem se tornado progressivamente mais barata. O cerne do problema é a Flexibilidade. O Brasil, com uma matriz historicamente dependente da Geração Hidráulica, está vendo a capacidade de compensação de seus Reservatórios ser testada por crises hídricas e pela entrada massiva de solar e eólica.
Com a tendência de redução das vazões médias em subsistemas cruciais, como o Sudeste, Norte e Nordeste, as hidrelétricas perdem parte de sua função de bateria natural. A intermitência das fontes limpas, embora vital para o clima, exige um backup constante e rapidamente acionável, o que as térmicas novas a gás natural, por exemplo, podem oferecer de maneira eficiente.
O estudo detalha que o cenário “sem térmicas novas” obriga o sistema a investir pesadamente em outras tecnologias de suporte. Isso inclui, principalmente, sistemas de armazenamento de energia em baterias de grande escala (BESS) e, o mais custoso, reforços maciços e antecipados nas linhas de transmissão para escoar a produção das regiões mais ensolaradas e ventosas para os grandes centros de consumo.
Essa infraestrutura de Flexibilidade forçada, sem o suporte das térmicas novas, eleva os custos totais do sistema em patamares que impactam o consumidor final. O debate deixa de ser sobre a escolha entre fontes limpas e fósseis, e passa a ser sobre o custo sistêmico da segurança energética.
Por Que a Necessidade de Térmicas Novas?
A ideia de que a expansão do parque elétrico pode dispensar as térmicas é sedutora do ponto de vista ambiental. Contudo, na engenharia do Setor Elétrico, a Geração Térmica moderna não é vista apenas como uma fonte de energia, mas como um provedor de serviços sistêmicos essenciais para a estabilidade da rede.
Térmicas novas, especialmente aquelas movidas a gás natural, são capazes de rampas rápidas de subida e descida de carga, oferecendo inércia e controle de frequência. Estes são serviços ancilares que garantem a qualidade e a segurança energética do Sistema Interligado Nacional (SIN) quando o sol se põe ou o vento para de soprar.
Eliminar o papel das térmicas novas exige que a expansão do parque elétrico encontre alternativas com as mesmas capacidades de Flexibilidade. O custo de replicar esses serviços apenas com baterias ou com a operação ainda mais rígida das hidrelétricas remanescentes é o que impulsiona o aumento de custar 70% mais, conforme o estudo da GIZ e MME.
O Setor Elétrico precisa de potência firme. A Geração Renovável intermitente oferece energia, mas não garante potência em todos os momentos. É essa lacuna de firmeza que as térmicas novas preenchem de forma mais econômica e testada, comparada com o investimento de capital intensivo em baterias.
O Paradoxo da Geração Renovável e a Vulnerabilidade Hídrica
O Brasil vive o auge da Geração Renovável. Solar e eólica estão transformando a matriz, mas essa transformação tem um preço regulatório e de planejamento. Se o sistema se expandir rapidamente apenas com essas fontes, a pressão sobre a Geração Hidráulica restante aumenta, tornando o SIN mais vulnerável a eventos climáticos extremos.
O estudo ressalta que a dependência excessiva de fontes intermitentes, sem um contraponto despachável eficiente, leva a um aumento exponencial do risco. Em um cenário sem térmicas novas, qualquer falha prolongada de vento ou seca mais severa exige o acionamento de soluções de última hora, tipicamente mais caras e poluentes que uma térmica a gás moderna.
A cifra de custar 70% mais é, portanto, um indicativo da sobrecarga imposta ao sistema de transmissão e aos serviços de ancillary services. O investimento necessário para tornar o SIN resiliente à alta intermitência, sem o suporte das térmicas novas, ultrapassa em muito o custo de um planejamento energético misto e equilibrado.
A busca por uma matriz 100% limpa, embora ideal, esbarra na realidade da engenharia elétrica. A velocidade da expansão do parque elétrico e a necessidade de segurança energética em uma economia crescente tornam a presença de térmicas novas temporárias ou estratégicas quase inevitável no horizonte de médio prazo.
Implicações Políticas e de Planejamento
Para os profissionais do Setor Elétrico, o estudo da GIZ/MME é uma ferramenta poderosa no debate regulatório. Ele fornece a base técnica para justificar a manutenção de leilões que contemplem fontes de Flexibilidade, mesmo que baseadas em gás natural. O planejamento não pode ignorar o custo-benefício.
A crítica de que a ausência de térmicas novas pode custar 70% mais direciona o foco para as políticas de preço de carbono e mecanismos de capacidade. Se a sociedade quer eliminar as fósseis, o custo adicional de 70% deve ser absorvido via subsídios, mecanismos de cap-and-trade ou preços mais altos ao consumidor.
O estudo também sugere uma profunda necessidade de investimento em infraestrutura de gás. As térmicas novas que entrariam no sistema seriam, idealmente, unidades de ciclo combinado de alta eficiência e flexibilidade. O investimento em gasodutos e infraestrutura de suprimento de gás é parte integrante do cenário mais eficiente.
Em suma, a expansão do parque elétrico brasileiro, ao tentar se afastar completamente das térmicas novas, enfrentará um gargalo financeiro de custar 70% mais, tornando a transição energética menos acessível e potencialmente mais lenta. O caminho mais prudente, defendido pelo estudo, passa pelo equilíbrio entre a Geração Renovável em ascensão e a Flexibilidade proporcionada pelas fontes despacháveis, garantindo a segurança energética a um custo otimizado para o país.
Visão Geral
A análise da GIZ/MME demonstra que a implementação da expansão do parque elétrico com foco exclusivo em fontes intermitentes eleva drasticamente os custos de segurança energética em 70%. A Flexibilidade oferecida pelas térmicas novas é crucial para mitigar a intermitência da Geração Renovável, sendo um fator decisivo no custo final da transição energética brasileira.



















