Análise do Conflito Regulatório sobre Ressarcimento de Curtailment e seu Impacto na Transição Energética Brasileira

Análise do Conflito Regulatório sobre Ressarcimento de Curtailment e seu Impacto na Transição Energética Brasileira
Análise do Conflito Regulatório sobre Ressarcimento de Curtailment e seu Impacto na Transição Energética Brasileira - Foto: Reprodução / Freepik
Compartilhe:
Fim da Publicidade

Debate acalorado sobre o ressarcimento ao curtailment, via MP 1.304, opõe associações do setor de energia limpa a governadores, visando a segurança jurídica dos investimentos.

Conteúdo

O VÍRUS DO CURTAILMENT: SINTOMA DE UM SISTEMA CONGESTIONADO

O curtailment é o corte compulsório da geração de energia elétrica determinado pelo ONS (Operador Nacional do Sistema). Este procedimento ocorre quando há um excesso de geração em relação à capacidade de escoamento da infraestrutura de transmissão, especialmente nas regiões de maior concentração de parques eólicos e solares, como o Nordeste.

Tecnicamente, o curtailment é uma medida de estabilidade da rede. Financeiramente, é uma receita perdida. O gerador de energia limpa, que investiu sob a premissa de que sua produção seria vendida, não pode entregar a energia contratada e, consequentemente, tem seu faturamento comprometido. A crescente frequência e volume desses cortes de geração tornaram o problema uma crise de liquidez para o setor elétrico.

O GRITO DAS ASSOCIAÇÕES: “RESSARCIMENTO PARA SOBREVIVER”

As associações do setor, como a ABEEólica e a ABSOLAR, são uníssonas em sua defesa: o ressarcimento integral é uma questão de segurança jurídica. Se o curtailment é causado por uma falha sistêmica (a falta de transmissão planejada), o risco não pode ser absorvido apenas pelo gerador que cumpre rigorosamente seu contrato de concessão.

A tese é que a falta de ressarcimento transforma os projetos em ativos de alto risco regulatório, elevando o custo de capital e, em última instância, causando a inviabilidade de novos investimentos. A indústria argumenta que o capital estrangeiro, vital para a transição energética, fugirá de um mercado onde as regras de remuneração são alteradas unilateralmente ou onde a infraestrutura energética não garante o escoamento.

O pleito das associações é claro: o mecanismo de ressarcimento deve cobrir as perdas de receita, assegurando que o investidor não seja punido pela falta de planejamento da infraestrutura de transmissão. Sem essa garantia, a agenda da descarbonização do Brasil corre um sério risco de retrocesso.

A PREOCUPAÇÃO DOS GOVERNADORES: O CUSTO NA TARIFA

Do outro lado do ringue, os governadores representam a preocupação imediata do consumidor final. O custo do ressarcimento aos geradores, se implementado, será rateado e incluído na tarifa de energia elétrica paga pelos consumidores (via encargos setoriais ou TUSD/TUST).

Governadores de estados com alta demanda industrial, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, temem que a elevação da tarifa impacte a competitividade de suas economias. A energia limpa tem sido um fator de atração industrial, mas se o custo de sua inviabilidade for repassado integralmente ao consumidor, o benefício da transição energética pode ser diluído.

A defesa dos governadores é que o setor elétrico precisa encontrar uma solução equilibrada, possivelmente limitando o valor do ressarcimento ou buscando fontes de financiamento alternativas (como o Tesouro Nacional) para não penalizar a tarifa. Eles pressionam o MME e o Congresso a encontrar uma regra que proteja o consumidor final da ineficiência na expansão da transmissão.

A MP 1.304 E O IMPASSE REGULATÓRIO

A MP 1.304 (e seu debate subsequente) não criou o problema do curtailment, mas o elevou ao nível de crise regulatória ao tentar definir as regras de compensação. O impasse se concentra na metodologia: o ressarcimento deve ser calculado com base no PLD (Preço de Liquidação de Diferenças) ou com base no Preço de Referência dos contratos de longo prazo (PPAs)?

FIM PUBLICIDADE

As associações defendem o preço contratual para garantir a segurança jurídica dos investimentos. Já os críticos do ressarcimento total veem no PLD um mecanismo mais justo, embora mais volátil. A definição desse indexador é a chave para o montante bilionário em jogo e para a estabilidade da rede.

A ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) e o MME (Ministério de Minas e Energia) estão sob intensa pressão para mediar essa disputa. A solução precisa ser juridicamente sólida e economicamente viável, garantindo que o ressarcimento não se torne um risco regulatório que encarece artificialmente a energia elétrica brasileira.

INVIABILIDADE E O FUTURO DOS LEILÕES

O principal argumento das associações é preventivo. Se a questão do ressarcimento ao curtailment não for resolvida, a inviabilidade de novos projetos em eólica e solar é inevitável. O próximo ciclo de leilões de geração limpa corre o risco de ter baixa adesão, pois os players internacionais e bancos de financiamento verão o setor elétrico brasileiro como um ambiente de alto risco.

O impasse entre associações e governadores ameaça a própria transição energética. O Brasil precisa de cerca de R$ 50 bilhões em investimentos anuais em energia renovável e infraestrutura energética para atingir as metas climáticas. Criar uma barreira de risco regulatório sobre o curtailment é sabotar o potencial de liderança global do país em energia limpa.

O CAMINHO DO EQUILÍBRIO: SOLUÇÕES ESTRUTURAIS

A solução de longo prazo para o curtailment não está no ressarcimento, mas na infraestrutura. O setor elétrico precisa de um plano acelerado de investimentos em transmissão para escoar a geração.

Além disso, a diversificação de tecnologias e o armazenamento de energia (sistemas de baterias) são cruciais. As baterias mitigam o curtailment ao absorver o excesso de energia eólica e solar, transformando a intermitência em energia limpa despachável. O MME precisa criar regras que incentivem o financiamento desses ativos, garantindo que o custo da estabilidade da rede seja menor do que o custo do ressarcimento.

O ressarcimento ao curtailment da MP 1.304 é um sintoma da desconexão entre o planejamento da geração e o da transmissão. A resolução do conflito entre associações e governadores exige uma visão que proteja a segurança jurídica do investidor sem sobrecarregar o consumidor final. O equilíbrio é a única regra que pode garantir o fluxo de investimentos e a continuidade da agenda da descarbonização no Brasil.

Visão Geral

O embate sobre o ressarcimento ao curtailment expõe a fragilidade da infraestrutura energética brasileira frente ao crescimento da geração limpa. Enquanto as associações exigem segurança jurídica para manter investimentos, governadores temem o aumento da tarifa ao consumidor. A MP 1.304 intensificou a discussão sobre a responsabilidade pelos cortes de geração, crucial para a transição energética e para evitar a inviabilidade de projetos futuros.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE
Facebook
X
LinkedIn
WhatsApp

Área de comentários

Seus comentários são moderados para serem aprovados ou não!
Alguns termos não são aceitos: Palavras de baixo calão, ofensas de qualquer natureza e proselitismo político.

Os comentários e atividades são vistos por MILHÕES DE PESSOAS, então aproveite esta janela de oportunidades e faça sua contribuição de forma construtiva.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ASSINE NOSSO INFORMATIVO

Inscreva-se para receber conteúdo exclusivo em seu e-mail, todas as semanas.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Arrendamento de Usina Solar

ARRENDAMENTO DE USINAS

Parceria que entrega resultado. Oportunidade para donos de usinas arrendarem seus ativos e, assim, não se preocuparem com conversão e gestão de clientes.

Locação de Kit Solar

ASSINE NOSSO INFORMATIVO

Inscreva-se para receber conteúdo exclusivo em seu e-mail, todas as semanas.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade NoBeta

Comunidade Energia Limpa Whatsapp.

Participe da nossa comunidade sustentável de energia limpa. E receba na palma da mão as notícias do mercado solar e também nossas soluções energéticas para economizar na conta de luz. ⚡☀

Siga a gente

Últimas Notícias

Energia Solar por Assinatura