Conteúdo
- O Alívio Conjuntural de Dezembro
- A Pressão Estrutural Permanece Intacta
- Os Custos Invisíveis do Desperdício
- O Foco na Solução: Armazenamento e Flexibilidade
- O Papel do Operador e a Previsão Futura
- Visão Geral
O Sistema Interligado Nacional (SIN) respirou aliviado no final de 2023. O temido curtailment — o corte forçado da geração de fontes intermitentes — apresentou uma trégua notável em dezembro, mas a palavra de ordem para os players de geração renovável continua sendo cautela. A queda momentânea no desperdício de energia, impulsionada por condições hidrometeorológicas favoráveis, não resolve a vulnerabilidade estrutural do sistema.
Para o profissional do setor, é crucial entender que o curtailment não é um erro, mas um sintoma da capacidade de escoamento da rede. Quando o vento sopra forte ou o sol brilha intensamente, e a demanda ou a capacidade de transmissão não acompanham, o ONS é forçado a acionar o freio.
O Alívio Conjuntural de Dezembro
Análises recentes do mercado mostram que dezembro foi um mês menos severo. A geração solar, por exemplo, que vinha sofrendo com índices elevados de corte (alguns meses atingindo a marca alarmante de 32,2% em outubro, segundo dados monitorados), viu seu curtailment médio cair para patamares próximos a 15,9%. Essa redução percentual representa TWh valiosos que puderam, de fato, ser injetados no sistema.
Da mesma forma, a geração eólica, grande motor da matriz em períodos chuvosos, também sentiu o alívio. Os ventos, embora ainda robustos, estavam mais alinhados com a capacidade de absorção do sistema, principalmente quando comparado com os meses anteriores, marcados por excesso hidrológico e alta produção.
A Pressão Estrutural Permanece Intacta
Contudo, este recuo em dezembro é, em grande parte, conjuntural. Ele não aborda a causa raiz do problema: o gargalo de infraestrutura. Enquanto a capacidade instalada de energia renovável (solar e eólica) cresce em ritmo exponencial, o investimento em linhas de transmissão e, crucialmente, em armazenamento, segue em ritmo aquém do ideal.
O curtailment se torna um custo evitado, mas não extinto. Ele reflete a falta de previsibilidade contratual para geradores que têm sua energia fisicamente podada. Essa incerteza afeta a rentabilidade dos ativos e o bankability de novos projetos, algo que o setor precisa urgentemente endereçar com soluções tecnológicas.
Os Custos Invisíveis do Desperdício
Quando falamos em corte, estamos falando em perdas financeiras bilionárias. Embora dezembro tenha reduzido a exposição a esse risco, o acumulado do ano anterior deixou cicatrizes. O custo de oportunidade, aquela energia que poderia ter sido vendida no Mercado de Curto Prazo (MCP) ou honrado contratos firmes, é substancial.
Para os especialistas, esse desperdício mostra que o custo de não investir em infraestrutura de escoamento e armazenamento é maior do que o custo de construir a própria rede de suporte. Ignorar a intermitência é um luxo que o sistema brasileiro, altamente dependente de fontes limpas, não pode mais pagar.
O Foco na Solução: Armazenamento e Flexibilidade
O mercado já discute a próxima fronteira para mitigar o curtailment: baterias de grande escala e projetos de hidrogênio verde (H2V). Baterias oferecem a flexibilidade imediata, absorvendo o excesso de geração em momentos de pico e devolvendo-o quando a intermitência falha.
A implantação de grandes projetos de armazenamento é vista como o contraponto tecnológico necessário à volatilidade eólica e solar. Sem essa “almofada” de energia, sempre que a demanda cair e a produção renovável subir simultaneamente, seremos forçados a limitar a produção, perpetuando o ciclo vicioso do curtailment.
O Papel do Operador e a Previsão Futura
O ONS faz um trabalho heroico diariamente para equilibrar a matriz, mas depende de previsões hidrometeorológicas precisas e de uma rede com mais braços para escoar a energia. O recuo em dezembro é um presente sazonal, mas o setor elétrico deve usar este momento de alívio para acelerar o planejamento de longo prazo.
A integração massiva de geração renovável exige modernização regulatória e técnica. Enquanto isso não se concretizar plenamente, mesmo em um mês de ventos ou sol mais amenos, a sombra do curtailment continuará pairando sobre os investimentos em energia limpa no Brasil. Manter a geração no papel, mas sem a chance de entregá-la à rede, é o maior desafio da sustentabilidade energética atual.
Visão Geral
A análise da SERP confirma a alta relevância do curtailment, que diminuiu em dezembro (solar a 15,9%), mas a pressão estrutural permanece devido à expansão acelerada da energia renovável sem o devido reforço em transmissão e armazenamento, mantendo a cautela necessária entre os players do setor.






















