O que de fato está mudando: uma provável “mágica” algorítmica que move a economia política e seus lobbies
O que de fato está mudando: uma provável “mágica” algorítmica que move a economia política e seus lobbies
Por Charles Machado – SC
A transformação que a Inteligência Artificial (IA) trará é um consenso geral, mas a questão central é: o que ela já está alterando concretamente e qual o impacto real nos resultados financeiros das empresas e no cotidiano das pessoas?
Para quem busca uma resposta imediata, declaramos nosso **apoio à adoção ampla da IA**. Contudo, é fundamental debater o custo dessa transformação, a maneira como ela está sendo implementada e, crucialmente, considerar os vieses éticos e discriminatórios que permeiam muitas de suas aplicações.
Não se trata de rejeitar a inovação, mas sim de discutir sua velocidade, forma de implementação e o preço envolvido.
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Quando os ganhos de curto prazo dominam, quem se beneficia mais dita as regras. O que está realmente transformando o cenário é uma aparente “magia algorítmica” que influencia a economia política e seus grupos de interesse, alterando a infraestrutura que está sendo construída, em grande parte, por meio de incentivos questionáveis.
Esta nova indústria exige **quantidades vastíssimas de energia elétrica** e capital significativo para prosperar. Isso aponta para um modelo antigo: engenharia financeira complexa, externalidades ambientais não contabilizadas e uma disputa regulatória onde blocos geopolíticos tentam impor suas regras.
Para justificar o avanço que inflaciona o financiamento e a valorização (valuation) das empresas que meramente adicionam “IA” em seu nome ou estrutura, tudo é validado em uma corrida desenfreada.
Entretanto, é crucial analisar essa base financeira. Em um cenário de alto investimento de capital (CAPEX), surge o segundo padrão: a ocultação de dívidas. Grandes empresas de tecnologia e o ecossistema de inteligência artificial estão movendo mais de **US$ 120 bilhões em financiamentos** de data centers para fora de seus balanços por meio de Veículos de Propósito Específico (SPVs), bancados por Wall Street e pelo mercado de crédito privado. Isso não é um detalhe técnico; é um indicativo claro de uma bolha em formação.
Quando uma indústria precisa manter uma taxa de crescimento contínua para validar sua narrativa, ao mesmo tempo em que precisa manter seus indicadores financeiros com aparência saudável, a estratégia é transferir o problema para outra área. O risco não desaparece; ele é apenas redistribuído em estruturas contábeis pouco transparentes.
A terceira dimensão é a geopolítica do controle. Enquanto no Ocidente observamos um impasse entre o lobby e um otimismo tecnológico superficial, a **China adota uma abordagem diferente**. O regulador cibernético chinês propôs diretrizes para serviços de IA que simulam interações humanas, estabelecendo obrigações claras para alertar sobre uso excessivo e intervir em casos de dependência extrema, angústia emocional ou vício.
É legítimo e necessário debater os limites de liberdade e censura no modelo chinês. No entanto, há uma constatação incômoda: eles reconhecem formalmente que esses sistemas podem gerar dependência psicológica e mecanismos de vício. Em nossas democracias, isso é frequentemente tratado como secundário ou, pior, deixado à “autorregulação” mágica do mercado.
Uma crença tão ingênua quanto a do **Papai Noel ou do Coelhinho da Páscoa**.

Mercado de ações e o clássico do capitalismo
Ao juntar todos os fatos, percebe-se que o debate não é apenas tecnológico, mas sim um **retrato clássico do capitalismo de infraestrutura**, focado em enriquecimento rápido para poucos: expansão vertiginosa baseada em expectativas infladas, financiada por meios cada vez menos transparentes e dependente de soluções energéticas que confrontam a urgência climática.
A incoerência de sempre é ampliada: nós **desejamos data centers em todo lugar**, mas evitamos planejar redes de energia, fontes renováveis ou armazenamento adequado. Queremos liderar a corrida tecnológica, mas sem aceitar a disciplina industrial que isso exige. Buscamos inovação, mas sem arcar com os custos ou respeitar os limites.
O problema não reside no investimento em si, mas na lógica por trás dele. Quando o discurso dominante é “construir a qualquer custo, e resolveremos os problemas depois”, o resultado provável é uma combinação de excesso de capacidade instalada, externalidades não resolvidas e resgates financeiros disfarçados.
Na melhor das hipóteses, resultará em uma **ressaca de infraestruturas subutilizadas** e dívidas mal direcionadas. Na pior, um sistema energético sobrecarregado, com custos repassados às comunidades locais, e uma indústria que, ao desacelerar do ritmo prometido, deixará um legado de risco financeiro empacotado em produtos difíceis de analisar.
É inegável que a IA possui utilidades valiosas e veio para ficar, mas a que custo?
Neste momento, os gigantescos investimentos em IA estão competindo com os gastos dos consumidores, tradicionalmente o principal motor de crescimento. Nos EUA, por exemplo, no primeiro semestre deste ano, os gastos das **empresas com IA** igualaram-se aos dos consumidores como principal força motriz da expansão econômica do país.
Essa mudança notável demonstra o peso crescente da IA no suporte à economia americana e pode ser um sinal de que estamos diante de uma bolha especulativa à beira de estourar, o que pode gerar perdas financeiras amplas.
O mercado de ações se mantém próximo de picos históricos, sustentado principalmente pelas ações de **empresas de tecnologia** que colocaram a IA no centro de seus modelos de negócios. Nos EUA, a economia cresceu 1,6% no primeiro semestre de 2025, sendo a maior parte desse avanço impulsionada pelos gastos com IA.
Sem os investimentos em IA, o crescimento teria sido aproximadamente um terço dessa taxa, conforme dados do **Bureau of Economic Analysis**.
A popularidade de ferramentas como o ChatGPT e outras IAs entre empresas e consumidores, com centenas de bilhões injetados nos últimos três anos, ainda não se traduziu em lucro majoritário para a maioria. Serão necessários ainda mais investimentos futuros para que a rentabilidade seja alcançada.
**Mark Zuckerberg** comparou recentemente os gastos com IA aos grandes investimentos que ergueram as ferrovias americanas no século XIX e as redes de fibra óptica nos anos 1990. Ambos se mostraram valiosíssimos, mas somente após o estouro das bolhas de investimento iniciais que levaram muitas empresas à falência.
A pergunta crucial permanece: quando isso acontecerá?
Visão Geral
A revolução da IA, embora reconhecida por todos, está sendo moldada por dinâmicas financeiras e geopolíticas que remetem a padrões antigos do capitalismo. A expansão acelerada da infraestrutura de IA exige capital e energia em volumes extremos, levantando preocupações sobre sustentabilidade ambiental e a transparência dos mecanismos de financiamento (como o uso de SPVs para esconder dívidas). Paralelamente, enquanto o Ocidente debate a tecnologia, a China já estabelece marcos regulatórios preocupados com os impactos psicológicos da IA. A questão central não é se a IA é valiosa, mas se o modelo atual de investimento — comparável às bolhas das ferrovias e da internet — é sustentável, e quando a inevitável correção de mercado ocorrerá.
Créditos: Misto Brasil























