Fabricantes europeus de turbinas eólicas exploram fusões para competir com o avanço chinês e garantir protagonismo na transição energética global.
A Europa, líder histórica na fabricação de turbinas eólicas, está em um momento crucial, avaliando estratégias de consolidação para reforçar sua posição frente à crescente influência da China no mercado global de energia renovável. A possibilidade de fusões entre os principais players europeus surge como uma resposta à necessidade de criar campeãs industriais capazes de competir em escala e inovação.
O ponto mais relevante é a urgência em definir um caminho que equilibre a necessidade de escala com a manutenção da competitividade e da inovação, em um cenário onde os fabricantes chineses ganham terreno aceleradamente em mercados emergentes e já começam a desafiar a presença europeia em casa.
A Ascensão Chinesa e a Preocupação Europeia
Por décadas, os fabricantes de turbinas eólicas da Europa e da China dominaram seus respectivos mercados internos. No entanto, a estratégia chinesa de expansão tem sido agressiva, conquistando novos territórios em regiões de rápido crescimento, como a América Latina e o Oriente Médio, e agora mirando diretamente o mercado europeu. Esse avanço global tem gerado apreensão entre os decisores políticos e executivos europeus quanto à capacidade do continente de manter sua força em setores estratégicos para a transição energética.
A sugestão de consolidação para atingir maior escala vem ganhando força. Conforme apontou José Manuel Entrecanales, CEO da Acciona e maior acionista da Nordex, uma das líderes europeias:
“Temos várias oportunidades —uma das quais é a energia eólica. [Mas] escala é a essência. […] Acreditamos que, para ganhar a diferença de escala, a consolidação é o único meio.”
Essa visão reflete uma discussão mais ampla sobre como a União Europeia pode fomentar o surgimento de gigantes corporativos capazes de competir internacionalmente, um tema que também motivou a revisão das regras de fusão do bloco.
Novas Regras de Fusão e o Desafio da Escala
Em abril, a Comissão Europeia apresentou novas diretrizes para fusões e aquisições, com foco em destacar os benefícios da escala corporativa e incentivar os órgãos de concorrência a dar mais peso à inovação, ao investimento e à resiliência do mercado interno. Essa mudança de abordagem visa facilitar a criação de campeãs europeias, um objetivo que se alinha com o histórico relatório de Mario Draghi de 2024, voltado para impulsionar a competitividade europeia.
A indústria europeia de turbinas eólicas já é relativamente concentrada, com players como Nordex, Vestas, Siemens Gamesa e Enercon. Isso levanta a questão sobre quais tipos de fusões ainda seriam permitidas pelas autoridades reguladoras, que, segundo algumas fontes, têm minimizado a ideia de uma “revolução” nas regras.
Contudo, nem todos concordam que a consolidação seja a única resposta. Simone Tagliapietra, pesquisador sênior do think-tank Bruegel, adverte:
“A Europa deveria ter cuidado para não confundir tamanho com competitividade. A história da indústria europeia sugere que a consolidação sozinha raramente substitui inovação, produtividade e um mercado único genuíno.”
### O Modelo Chinês: Vantagem de Escala e Custo
A preocupação europeia em evitar um cenário semelhante ao da indústria de painéis solares, onde a concorrência chinesa levou à dependência de importações, é um fator motivador. Atualmente, a China domina não apenas a fabricação de painéis solares e baterias, mas também a produção de turbinas eólicas.
Fabricantes chineses como Goldwind, Envision, Windey e Ming Yang detêm a vasta maioria do mercado interno chinês e têm expandido sua presença global. Em 2023, essas empresas instalaram mais de 70% da nova capacidade eólica global, totalizando 120 GW, enquanto a Europa instalou pouco menos de 20 GW.
A Goldwind, maior fabricante chinesa, instalou mais que o dobro da capacidade de sua rival europeia, a dinamarquesa Vestas, no ano passado (30 GW contra 14,5 GW). Essa escala colossal permite à China produzir a custos menores e oferecer preços mais competitivos. Relatórios indicam que turbinas eólicas onshore chinesas são 20% a 40% mais baratas em mercados onde competem diretamente com as europeias.
A Vestas ainda lidera em capacidade instalada acumulada globalmente, mas o cenário de novas instalações anuais mudou significativamente, com os cinco maiores players em 2023 sendo todos chineses. A projeção é que fabricantes chineses conquistem 27% da capacidade onshore instalada fora da China na próxima década.
### Recuperação Europeia e o Futuro da Consolidação
Os fabricantes europeus enfrentaram pesadas perdas em 2022, espremidos pelo aumento de custos e pela pressão para manter preços baixos. Desde então, houve uma recuperação, com as ações de empresas como Vestas e Nordex apresentando alta. Nenhuma delas deseja arriscar essa recuperação em uma guerra de preços com a China.
Em termos de fusões, uma união entre Vestas e Nordex poderia ser considerada excessiva pelas autoridades de fusão, segundo analistas. Uma fusão entre Siemens Gamesa e Nordex, por outro lado, poderia ser mais viável.
Advogados especializados no setor de energia renovável argumentam que a consolidação pode ser um caminho para aumentar os investimentos em inovação, um dos focos das novas diretrizes da UE. O CEO da Vestas, Henrik Andersen, apoia a ideia de criar campeãs europeias, mas ressalta os desafios:
“Se a visão [de Entrecanales] de uma campeã global se tornar realidade, terá que ser sob uma regra de isenção ou nova legislação. Se você algum dia me convidar para dançar, ficarei feliz em dançar. Mas então teremos que ter uma música [diferente] tocando.”
A busca por soluções estratégicas, incluindo a consolidação, é vista como essencial para que a Europa mantenha sua relevância e garanta um papel de destaque na acelerada transição energética global.





















