Três anos após as polêmicas de ‘neutralidade climática’ no Catar, a FIFA enfrenta pressão para provar que a Copa de 2026 será sustentável, evitando as acusações de greenwashing que marcaram o torneio anterior.
Em junho, o debate sobre o impacto ambiental dos grandes eventos esportivos ganha força. Exatamente três anos após o início das contestações sobre a propaganda de “neutralidade” da Copa do Mundo de 2022, o setor de energia limpa e os defensores da sustentabilidade voltam seus olhos para os preparativos da edição de 2026. A FIFA, desta vez, precisa lidar com um escrutínio muito mais rigoroso.
A memória do que ocorreu no Catar, onde a comissão suíça apontou uma “impressão falsa” sobre o balanço de carbono, serve como um alerta. À medida que a Copa de 2026 se desenha como o torneio mais lucrativo da história, com investimentos bilionários, a dúvida que paira no ar é: como a entidade pretende conciliar cifras gigantescas com uma agenda real de descarbonização?
O desafio da neutralidade em 2026
O próximo mundial, sediado nos Estados Unidos, México e Canadá, apresenta uma complexidade logística sem precedentes. Com um aumento de 50% no número de seleções e uma duração estendida, a pegada de carbono projetada é expressiva. Especialistas apontam que a meta de reduzir a poluição atmosférica local colide diretamente com o aumento do fluxo de viagens aéreas e a mobilidade entre arenas.
“Em dezembro de 2022, a Comissão Suíça de Equidade teria contradito, com respaldo de organizações na Bélgica, França, Reino Unido e Países Baixos, as alegações da FIFA de que a Copa do Mundo não teria impactos climáticos, ou seja, que haveria uma neutralidade de carbono na Copa do Catar. Agora, a própria FIFA se coloca em um cenário duvidoso, já que a Copa do Mundo de 2026 ocorrerá nos Estados Unidos, que retirou o país do Acordo de Paris pela segunda vez. Isso traz à tona um questionamento: a preocupação com a sustentabilidade é genuína? Ou é um pano para agradar as agendas internacionais?”, questiona Liu Berman, líder do Movimento Reinventando Futuros e da LB Cultura Circular.
O risco do ‘sportswashing’ e as diretrizes ambientais
Além do greenwashing, o relatório da Universidade de Manchester traz à luz o conceito de *sportswashing*. A preocupação não é apenas com o carbono emitido, mas com a forma como o capital fóssil se infiltra na cultura esportiva, utilizando a paixão pelo futebol para validar modelos de negócios que retardam a transição energética.
A FIFA estabeleceu o Objetivo EN3 dentro do pilar ambiental, buscando mitigar danos nos locais das partidas. Contudo, para muitos analistas, a eficácia dessas diretrizes depende de indicadores transparentes e independentes. A necessidade de métricas reais é urgente, especialmente quando observamos os impactos das mudanças climáticas sobre atletas e torcedores.
Rumo a um futebol mais verde
A transição para um modelo verdadeiramente sustentável exige mais do que promessas. De acordo com Liu Berman, referência em sustentabilidade e palestrante na COP30, o setor precisa evoluir para além das aparências:
“Enquanto a preocupação com a agenda climática e sustentável não for real, casos de ‘lavagem verde’ (greenwashing) vão continuar existindo. Reduzir a poluição local, dentro da maior competição de futebol da história em números, será uma missão, no mínimo, desafiadora para os organizadores”, completa a especialista.
O futuro da Copa do Mundo depende de ações concretas que atestem o desenvolvimento social e ambiental. O legado de 2026 será definido pela capacidade da organização de integrar a preservação do planeta à grandiosidade do esporte, garantindo que a “magia do futebol” não ocorra às custas da crise climática.






















