Brasil descarta 37 TWh de energia renovável em 2025, revelando falhas regulatórias

Brasil descarta 37 TWh de energia renovável em 2025, revelando falhas regulatórias
37 TWh de curtailment em 2025 não é problema técnico: é uma falha de planejamento com custo real para a sociedade.
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Entenda o Curtailment: Energia Desperdiçada Enquanto o Brasil Discute Regras

Conteúdo

O que é Curtailment e Por que Importa?

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determina a interrupção da geração de energia, mesmo em condições ideais de vento ou sol. Diferentemente de um apagão ou falha de usina, o curtailment representa energia descartada por impossibilidade de absorção pelo sistema elétrico. Em 2025, o Brasil viu cerca de 37 TWh de geração eólica e solar centralizada (GC) serem cortados, triplicando o volume de 2024. Essa quantidade de energia seria suficiente para suprir o consumo anual de cidades como São Paulo, Guarulhos, Campinas e Santos combinadas, ou equivalente a 2,5 vezes a geração de Angra 1 e 2. Este cenário ressalta um gargalo crítico na infraestrutura de energia do país.

Como Chegamos a Esta Situação?

Entre 2017 e 2025, a geração centralizada (GC) expandiu significativamente, de aproximadamente 17 GW para cerca de 57 GW. Esse crescimento foi planejado e suportado pelo sistema, com cada usina passando por rigorosos processos de outorga, parecer de acesso do ONS, contratos de uso da rede e liberação operacional. O escoamento da energia gerada era formalmente reservado, em linha com a exigência do sistema para que as distribuidoras contratem energia antecipadamente via leilão, garantindo o suprimento futuro. Este planejamento visava a segurança e a eficiência do fornecimento de energia elétrica para a demanda projetada.

A Assimetria Regulatória: Dois Sistemas, Duas Lógicas Opostas

Paralelamente ao crescimento da GC, a geração distribuída (GD) – como painéis solares em telhados e minigeração – experimentou um salto impressionante, de 0,5 GW para cerca de 43,5 GW em apenas 8 anos, uma expansão de 87 vezes. Estimulada por direitos de acesso à rede, compensação de créditos e enquadramento pela unidade consumidora, a GD cresceu fora do planejamento centralizado e sem uma avaliação completa de seu impacto no balanço do sistema. Isso resultou em uma situação onde o mesmo escoamento de rede foi comprometido duas vezes: uma para a GC, seguindo os trâmites estabelecidos, e outra para a GD, por direito. Na prática, a GD obteve prioridade no acesso à rede e no escoamento.

O Impacto da Geração Distribuída no Curtailment

A assimetria regulatória é a raiz do problema do curtailment, uma questão que clama por um debate público mais aprofundado. O curtailment médio saltou de 0,1% em 2017 para 1,2% em 2021 (com 8,4 GW de GD), atingindo 4,5% em 2023 (com 26 GW de GD) e chegando a aproximadamente 20% em 2025 (com 44 GW de GD). O ONS estima que, sem a geração distribuída, o curtailment por razão energética em 2024 teria sido 99% menor. Crucialmente, o ONS não possui autoridade de despacho sobre a GD, impedindo-o de solicitar reduções ou modulações em caso de desequilíbrio no sistema.

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A Responsabilidade do ONS e o Custo Econômico

Diante de desequilíbrios sistêmicos, o ONS recorre à única ferramenta que possui: o corte da geração centralizada (GC). Essa medida não se baseia na responsabilidade da GC pelo problema, mas na necessidade de manter a segurança e a estabilidade do sistema elétrico para todos os consumidores. A injustiça reside não no ato do corte em si, mas na alocação do ônus econômico. A GC acaba arcando com os custos de uma decisão regulatória e legislativa que permitiu o crescimento descontrolado de outro regime de geração, culminando no comprometimento da infraestrutura e na geração desperdiçada. O uso de fontes como a solar e eólica, que poderiam ser aproveitadas pelo Portal Energia Limpa em https://go.energialimpa.live/energia-livre, é impactado.

O Desafio Regulatório e a Busca por Soluções

A regulação posterior ao avanço da GD falhou em corrigir o desequilíbrio estrutural, focando apenas em administrar as consequências. As Resoluções Normativas (REN) 927/2021 e 1.030/2022 estabeleceram classificações de cortes, mas, ironicamente, excluindo da compensação os cortes por razão energética. Estes são justamente os mais frequentes e diretamente ligados à expansão da GD, agravando o problema e o desperdício de energia limpa. A busca por um marco regulatório equânime é essencial para o futuro da matriz energética brasileira.

Visão Geral

O Brasil enfrenta um paradoxo energético: enquanto discute a regulamentação do setor, descarta quantidades significativas de energia renovável. O curtailment, fenômeno de energia descartada por incapacidade do sistema em absorvê-la, tem crescido exponencialmente. Esse cenário é impulsionado, em grande parte, pela rápida expansão da geração distribuída (GD), que opera sob regras distintas da geração centralizada (GC), gerando assimetrias e sobrecarregando a infraestrutura de escoamento. O ONS, sem poder de controle sobre a GD, é forçado a cortar a geração centralizada, gerando custos econômicos injustos. A regulação atual não tem sido suficiente para resolver o problema, exigindo uma revisão profunda para garantir o aproveitamento pleno do potencial de energia limpa do país.

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