O Conselho Nacional de Direitos Humanos recomendou a paralisação do licenciamento da UTE Brasília por riscos graves às comunidades e ao meio ambiente local.
Conteúdo
- A Atuação do CNDH e a Governança ESG na Engenharia de Energia
- O Confronto Regulatório e a Inviabilidade Crônica da UTE Brasília
- Os Riscos Socioambientais em Detalhes da Geração Termelétrica a Gás
- Gás Fóssil Versus Transição Energética Justa e Clean Energy
- O Novo Paradigma para o Licenciamento Ambiental de Infraestrutura
- Visão Geral
A Atuação do CNDH e a Governança ESG na Engenharia de Energia
A pauta de sustentabilidade no setor elétrico acaba de ganhar um peso regulatório e ético sem precedentes. O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), órgão de relevância federal, emitiu uma forte Recomendação solicitando a suspensão imediata do licenciamento ambiental da Usina Termelétrica (UTE) Brasília. A medida, que acatou um pedido formal do Instituto Internacional ARAYARA, fundamenta-se em graves riscos socioambientais e na potencial violação de direitos humanos das comunidades residentes no entorno de Samambaia, no Distrito Federal.
Este movimento do CNDH transcende a esfera meramente técnica da engenharia de energia e insere o debate da Geração Termelétrica a Gás no centro da governança social e corporativa (ESG). Para investidores e profissionais do mercado, a recomendação sinaliza que a aprovação de projetos de infraestrutura não pode mais se apoiar apenas em análises econômicas e de suprimento, mas deve integrar de forma irrestrita a dimensão humana e ambiental.
O Confronto Regulatório e a Inviabilidade Crônica da UTE Brasília
A UTE Brasília, um projeto que prevê a utilização de gás natural, já enfrentava ventos contrários. Em um contexto anterior à manifestação do CNDH, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) já havia indeferido o pedido de Licença Prévia (LP) para a usina. O indeferimento do IBAMA, baseado em pareceres técnicos, apontou a inviabilidade ambiental e locacional do empreendimento, criticando sua localização estratégica no Bioma Cerrado.
O CNDH agora reforça esse parecer, elevando o patamar da crítica. A Usina, planejada para Samambaia, estaria localizada muito próxima à Área de Proteção Ambiental (APA) de Cafuringa e à Unidade de Conservação Ecológica do Guariroba. Tais áreas são vitais para o recurso hídrico que abastece o Distrito Federal, tornando a possibilidade de poluição atmosférica ou contaminação da água um fator de risco sistêmico.
A Recomendação do CNDH não atua apenas como endosso ao IBAMA. Ela estabelece que a análise do licenciamento UTE Brasília falhou em considerar adequadamente o direito fundamental à saúde e a um meio ambiente equilibrado, impactando diretamente os moradores do DF. Esta é uma mudança crucial: o órgão de direitos humanos passa a intervir ativamente na segurança energética.
Os Riscos Socioambientais em Detalhes da Geração Termelétrica a Gás
A centralidade da preocupação do CNDH reside nos riscos socioambientais inerentes à Geração Termelétrica a Gás em um centro urbano denso. A queima do gás natural, embora menos poluente que o carvão ou óleo combustível, ainda libera óxidos de nitrogênio (NOx), dióxido de carbono (CO2) e material particulado fino. A dispersão desses poluentes representa um perigo real de aumento de doenças respiratórias crônicas nas comunidades vizinhas.
Ademais, o projeto da UTE Brasília demandaria volumes significativos de água para resfriamento e operação. Localizado em uma região de vulnerabilidade hídrica — o Cerrado é a caixa d’água do Brasil, mas sofre com o estresse hídrico sazonal —, o uso intensivo de água pode exacerbar os conflitos locais e ameaçar a disponibilidade para o consumo humano e para as atividades agrícolas tradicionais.
A violação de direitos humanos citada pelo Conselho está profundamente ligada à transparência. Alega-se que as audiências públicas e os estudos de impacto ambiental não garantiram a participação efetiva e informada das comunidades afetadas. O direito à consulta prévia e a um processo de licenciamento ambiental justo e acessível são preceitos internacionais que, segundo o CNDH, foram negligenciados.
Gás Fóssil Versus Transição Energética Justa e Clean Energy
Para o segmento de clean energy, a polêmica da UTE Brasília é emblemática. O projeto representa a manutenção de uma matriz dependente de combustíveis fósseis em uma capital que deveria liderar a agenda de transição energética. Embora o gás natural seja frequentemente apresentado como uma “energia de transição” para dar firmeza à intermitência de solar e eólica, sua implementação em áreas sensíveis contraria os princípios de um desenvolvimento sustentável.
A recomendação do CNDH obriga o setor a repensar a viabilidade de longo prazo desses ativos. Projetos de Geração Termelétrica a Gás com alto risco socioambiental tendem a se tornar “ativos encalhados” (stranded assets) ou enfrentar litígios prolongados. A insegurança jurídica e regulatória gerada por esse tipo de conflito afasta o capital focado em sustentabilidade e ESG.
A transição energética justa, defendida por organismos internacionais e cada vez mais cobrada pela sociedade, exige que os novos empreendimentos não apenas substituam o carbono, mas garantam o bem-estar e a proteção dos direitos humanos das populações envolvidas. O caso da UTE Brasília é um divisor de águas nesse quesito.
O Novo Paradigma para o Licenciamento Ambiental de Infraestrutura
A atuação coordenada entre organizações da sociedade civil (ARAYARA) e um órgão estatal de direitos humanos (o CNDH) estabelece um novo e rigoroso precedente para o licenciamento ambiental de projetos energéticos no Brasil. No futuro, a avaliação de um EIA/RIMA precisará incorporar uma robusta análise de risco de violação de direitos humanos, validada por canais mais amplos e democráticos de participação social.
A Recomendação nº 14/2025 do CNDH não possui poder executivo imediato, mas exerce uma pressão política e moral significativa sobre o Ministério de Minas e Energia e os órgãos ambientais. O Governo Federal, que tem pautado sua atuação na agenda climática, enfrenta agora o desafio de conciliar a necessidade de segurança energética com o cumprimento de suas próprias metas ambientais e sociais.
A suspensão do licenciamento UTE Brasília serviria como um poderoso sinal de que o Brasil está sério em relação à transição energética e à mitigação de riscos socioambientais. O setor de clean energy observa atentamente, esperando que este caso impulsione políticas que favoreçam fontes verdadeiramente limpas e socialmente viáveis, solidificando o princípio de que direitos humanos e energia sustentável são indissociáveis no desenvolvimento nacional. A governança do sistema elétrico precisa se adequar a esta nova realidade ética e jurídica imposta pela sociedade.
Visão Geral
A exigência do CNDH pela suspensão do licenciamento ambiental da UTE Brasília marca um ponto de inflexão na análise de projetos de Geração Termelétrica a Gás, priorizando riscos socioambientais e direitos humanos sobre a mera viabilidade técnica, reforçando a agenda de sustentabilidade e ESG no setor elétrico nacional.



















