A expansão da energia limpa no Brasil é travada por cortes forçados (curtailment), denunciados como resultado de graves falhas de planejamento estrutural do setor elétrico.
Conteúdo
- O Paradoxo da Abundância: Por Que o ONS Corta a Geração
- A Condenação: Falhas Estruturais de Planejamento
- O Missing Link: A Urgência do Armazenamento de Energia
- A Resposta Legislativa e a Remediação Financeira
- O Risco de Prejuízo e a Falácia da Segurança Energética
- A Revolução ONS 4.0: Digitalização e Previsibilidade
- O Recado Final: Da Lamentação à Ação
O Brasil, campeão global em expansão de energia renovável, vive um paradoxo doloroso: o excesso de sol e vento tem levado a cortes em renováveis forçados, o chamado *curtailment*, determinado pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). Este fenômeno, que penaliza financeiramente geradores e desperdiça eletricidade limpa, está no cerne da crise regulatória atual. Para o Senador Eduardo Braga, relator de importantes matérias do setor elétrico, a situação não é resultado de imprevistos técnicos ou “acidentes” ambientais. É uma falha de planejamento estrutural e previsível.
Braga, uma voz influente no debate sobre a transição energética, lança um alerta incisivo para os profissionais do setor: tratar os *curtailments* como eventos inesperados é mascarar a incapacidade do sistema de transmissão em acompanhar o ritmo frenético da energia eólica e energia solar. O problema reside na assimetria entre a velocidade de instalação dos parques e a lentidão na expansão da infraestrutura de rede. A inércia no planejamento da rede está, literalmente, cortando o futuro da energia limpa brasileira.
O Paradoxo da Abundância: Por Que o ONS Corta a Geração
O *curtailment* ocorre quando a geração de energia renovável intermitente (eólica e solar) excede a capacidade de escoamento das linhas de transmissão em uma determinada região, ou quando a injeção maciça ameaça a segurança energética do sistema. O Nordeste, polo de energia limpa, é o epicentro desses cortes em renováveis. O volume de geração em horários de pico solar ou eólico é tão grande que, sem a infraestrutura adequada, o ONS é obrigado a desligar usinas para evitar sobrecargas e, consequentemente, apagões.
Essa interrupção forçada não é apenas um contratempo operacional. É um prejuízo bilionário que atinge diretamente a confiança do investidor em energia renovável. Os geradores deixam de faturar a energia que poderiam produzir, e o país desperdiça uma fonte limpa e competitiva. O custo do *curtailment* é um indicador claro de que o planejamento de longo prazo falhou em prever a curva de crescimento da energia limpa eólica e solar.
Visão Geral: Falhas Estruturais de Planejamento
A crítica de Braga se baseia na premissa de que a falha de planejamento não está no horizonte de um ou dois anos, mas na visão de décadas. Os investimentos em energia renovável têm ciclos de implementação rápidos. Já o licenciamento e a construção de novas linhas de transmissão e subestações, necessárias para escoar essa energia, arrastam-se por anos devido à burocracia e aos gargalos ambientais. A infraestrutura de rede se tornou o elo mais fraco da transição energética.
A incapacidade do planejamento em integrar a expansão da geração à infraestrutura de transmissão impõe um teto ao desenvolvimento. De acordo com o senador, a responsabilidade deve ser atribuída aos órgãos de planejamento que não conseguiram sinalizar, com antecedência e precisão, as necessidades de reforço da rede. O resultado é que usinas de energia limpa prontas para operar acabam sendo limitadas por falta de “estrada” para transportar a eletricidade.
O Missing Link: A Urgência do Armazenamento de Energia
Para Braga e boa parte dos especialistas do setor, a solução para a intermitência e para os cortes em renováveis tem um nome: armazenamento de energia. A tecnologia de baterias em grande escala (BESS – *Battery Energy Storage Systems*) permite “guardar” a energia gerada em excesso nos picos e liberá-la em momentos de baixa produção ou de alta demanda, estabilizando a rede.
A falta de um marco regulatório claro e de leilões específicos para a contratação de armazenamento de energia é a materialização da falha de planejamento. Enquanto países desenvolvidos avançam rapidamente na integração de baterias ao sistema, o Brasil debate a sua viabilidade. O armazenamento de energia é o elo ausente que transformaria a energia eólica e energia solar de fontes intermitentes em capacidade firme e despachável.
A Resposta Legislativa e a Remediação Financeira
A pressão dos geradores diante dos cortes em renováveis forçados, obrigou o debate regulatório, culminando em propostas legislativas (como as incluídas na MP do setor elétrico) que buscam compensar os geradores pelas perdas. A ideia de que as empresas afetadas recebam reembolso, talvez via multas aplicadas pela ANEEL ou através de mecanismos específicos, é uma tentativa de mitigar o risco financeiro.
No entanto, essa remediação, embora necessária para a segurança energética dos investimentos, não resolve a causa-raiz. O planejamento não pode se limitar a criar mecanismos de indenização. Ele precisa eliminar a necessidade desses mecanismos através de ações concretas: mais linhas de transmissão e a contratação imediata de armazenamento de energia.
O Risco de Prejuízo e a Falácia da Segurança Energética
Quando a falha de planejamento resulta em cortes em renováveis, o sistema elétrico perde mais do que megawatts. Perde-se a credibilidade e a competitividade da energia limpa. Se o investidor não tem garantia de que sua produção será integralmente injetada na rede, o risco aumenta, e o custo do capital para novos projetos dispara.
Paradoxalmente, essa situação expõe a fragilidade da segurança energética. Em vez de usar a abundante energia eólica e energia solar para complementar as hidrelétricas e reduzir a necessidade de termelétricas mais caras e poluentes, o sistema é forçado a desperdiçá-la. Isso mantém o Brasil refém da capacidade firme de fontes mais caras e menos sustentáveis, aumentando os custos para o consumidor final.
A Revolução ONS 4.0: Digitalização e Previsibilidade
Superar os cortes em renováveis exige um salto tecnológico no planejamento e na operação. O ONS precisa se transformar em um “ONS 4.0”, utilizando *smart grids*, sistemas avançados de previsão meteorológica de precisão para energia eólica e energia solar, e modelos de gestão de rede em tempo real. A digitalização é crucial para otimizar o uso da infraestrutura existente.
Um planejamento moderno deve antecipar os picos e os vales da energia limpa com precisão cirúrgica, direcionando a capacidade firme e o armazenamento de energia para onde são mais necessários. Investir em *big data* e inteligência artificial para o despacho é tão importante quanto construir novas linhas, pois maximiza a eficiência do que já está instalado e mitiga os riscos de *curtailment* por erros de previsão.
O Recado Final: Da Lamentação à Ação
A contundente fala de Braga é um marco que tira a discussão dos cortes em renováveis da esfera da fatalidade e a coloca na mesa do planejamento estratégico. O setor de energia limpa exige um basta à miopia regulatória. O Brasil tem o sol, o vento e os recursos minerais. Falta-lhe, claramente, a velocidade na decisão e a coragem regulatória para investir massivamente em transmissão e, sobretudo, em armazenamento de energia.
A transição energética brasileira tem potencial para ser a mais limpa e competitiva do mundo, mas isso só será alcançado se as falhas de planejamento forem corrigidas com urgência. A contratação de capacidade firme via armazenamento de energia deve ser prioridade máxima. A estabilidade do sistema e a segurança energética do país dependem de um planejamento que não apenas reaja aos *curtailments*, mas que os previna de forma definitiva.



















