Análise Crítica: Falhas Estruturais Interrompem Expansão da Energia Renovável no Brasil

Análise Crítica: Falhas Estruturais Interrompem Expansão da Energia Renovável no Brasil
Análise Crítica: Falhas Estruturais Interrompem Expansão da Energia Renovável no Brasil - Foto: Reprodução / Freepik
Compartilhe:
Fim da Publicidade

A expansão da energia limpa no Brasil é travada por cortes forçados (curtailment), denunciados como resultado de graves falhas de planejamento estrutural do setor elétrico.

Conteúdo

O Brasil, campeão global em expansão de energia renovável, vive um paradoxo doloroso: o excesso de sol e vento tem levado a cortes em renováveis forçados, o chamado *curtailment*, determinado pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). Este fenômeno, que penaliza financeiramente geradores e desperdiça eletricidade limpa, está no cerne da crise regulatória atual. Para o Senador Eduardo Braga, relator de importantes matérias do setor elétrico, a situação não é resultado de imprevistos técnicos ou “acidentes” ambientais. É uma falha de planejamento estrutural e previsível.

Braga, uma voz influente no debate sobre a transição energética, lança um alerta incisivo para os profissionais do setor: tratar os *curtailments* como eventos inesperados é mascarar a incapacidade do sistema de transmissão em acompanhar o ritmo frenético da energia eólica e energia solar. O problema reside na assimetria entre a velocidade de instalação dos parques e a lentidão na expansão da infraestrutura de rede. A inércia no planejamento da rede está, literalmente, cortando o futuro da energia limpa brasileira.

O Paradoxo da Abundância: Por Que o ONS Corta a Geração

O *curtailment* ocorre quando a geração de energia renovável intermitente (eólica e solar) excede a capacidade de escoamento das linhas de transmissão em uma determinada região, ou quando a injeção maciça ameaça a segurança energética do sistema. O Nordeste, polo de energia limpa, é o epicentro desses cortes em renováveis. O volume de geração em horários de pico solar ou eólico é tão grande que, sem a infraestrutura adequada, o ONS é obrigado a desligar usinas para evitar sobrecargas e, consequentemente, apagões.

Essa interrupção forçada não é apenas um contratempo operacional. É um prejuízo bilionário que atinge diretamente a confiança do investidor em energia renovável. Os geradores deixam de faturar a energia que poderiam produzir, e o país desperdiça uma fonte limpa e competitiva. O custo do *curtailment* é um indicador claro de que o planejamento de longo prazo falhou em prever a curva de crescimento da energia limpa eólica e solar.

Visão Geral: Falhas Estruturais de Planejamento

A crítica de Braga se baseia na premissa de que a falha de planejamento não está no horizonte de um ou dois anos, mas na visão de décadas. Os investimentos em energia renovável têm ciclos de implementação rápidos. Já o licenciamento e a construção de novas linhas de transmissão e subestações, necessárias para escoar essa energia, arrastam-se por anos devido à burocracia e aos gargalos ambientais. A infraestrutura de rede se tornou o elo mais fraco da transição energética.

A incapacidade do planejamento em integrar a expansão da geração à infraestrutura de transmissão impõe um teto ao desenvolvimento. De acordo com o senador, a responsabilidade deve ser atribuída aos órgãos de planejamento que não conseguiram sinalizar, com antecedência e precisão, as necessidades de reforço da rede. O resultado é que usinas de energia limpa prontas para operar acabam sendo limitadas por falta de “estrada” para transportar a eletricidade.

O Missing Link: A Urgência do Armazenamento de Energia

Para Braga e boa parte dos especialistas do setor, a solução para a intermitência e para os cortes em renováveis tem um nome: armazenamento de energia. A tecnologia de baterias em grande escala (BESS – *Battery Energy Storage Systems*) permite “guardar” a energia gerada em excesso nos picos e liberá-la em momentos de baixa produção ou de alta demanda, estabilizando a rede.

A falta de um marco regulatório claro e de leilões específicos para a contratação de armazenamento de energia é a materialização da falha de planejamento. Enquanto países desenvolvidos avançam rapidamente na integração de baterias ao sistema, o Brasil debate a sua viabilidade. O armazenamento de energia é o elo ausente que transformaria a energia eólica e energia solar de fontes intermitentes em capacidade firme e despachável.

FIM PUBLICIDADE

A Resposta Legislativa e a Remediação Financeira

A pressão dos geradores diante dos cortes em renováveis forçados, obrigou o debate regulatório, culminando em propostas legislativas (como as incluídas na MP do setor elétrico) que buscam compensar os geradores pelas perdas. A ideia de que as empresas afetadas recebam reembolso, talvez via multas aplicadas pela ANEEL ou através de mecanismos específicos, é uma tentativa de mitigar o risco financeiro.

No entanto, essa remediação, embora necessária para a segurança energética dos investimentos, não resolve a causa-raiz. O planejamento não pode se limitar a criar mecanismos de indenização. Ele precisa eliminar a necessidade desses mecanismos através de ações concretas: mais linhas de transmissão e a contratação imediata de armazenamento de energia.

O Risco de Prejuízo e a Falácia da Segurança Energética

Quando a falha de planejamento resulta em cortes em renováveis, o sistema elétrico perde mais do que megawatts. Perde-se a credibilidade e a competitividade da energia limpa. Se o investidor não tem garantia de que sua produção será integralmente injetada na rede, o risco aumenta, e o custo do capital para novos projetos dispara.

Paradoxalmente, essa situação expõe a fragilidade da segurança energética. Em vez de usar a abundante energia eólica e energia solar para complementar as hidrelétricas e reduzir a necessidade de termelétricas mais caras e poluentes, o sistema é forçado a desperdiçá-la. Isso mantém o Brasil refém da capacidade firme de fontes mais caras e menos sustentáveis, aumentando os custos para o consumidor final.

A Revolução ONS 4.0: Digitalização e Previsibilidade

Superar os cortes em renováveis exige um salto tecnológico no planejamento e na operação. O ONS precisa se transformar em um “ONS 4.0”, utilizando *smart grids*, sistemas avançados de previsão meteorológica de precisão para energia eólica e energia solar, e modelos de gestão de rede em tempo real. A digitalização é crucial para otimizar o uso da infraestrutura existente.

Um planejamento moderno deve antecipar os picos e os vales da energia limpa com precisão cirúrgica, direcionando a capacidade firme e o armazenamento de energia para onde são mais necessários. Investir em *big data* e inteligência artificial para o despacho é tão importante quanto construir novas linhas, pois maximiza a eficiência do que já está instalado e mitiga os riscos de *curtailment* por erros de previsão.

O Recado Final: Da Lamentação à Ação

A contundente fala de Braga é um marco que tira a discussão dos cortes em renováveis da esfera da fatalidade e a coloca na mesa do planejamento estratégico. O setor de energia limpa exige um basta à miopia regulatória. O Brasil tem o sol, o vento e os recursos minerais. Falta-lhe, claramente, a velocidade na decisão e a coragem regulatória para investir massivamente em transmissão e, sobretudo, em armazenamento de energia.

A transição energética brasileira tem potencial para ser a mais limpa e competitiva do mundo, mas isso só será alcançado se as falhas de planejamento forem corrigidas com urgência. A contratação de capacidade firme via armazenamento de energia deve ser prioridade máxima. A estabilidade do sistema e a segurança energética do país dependem de um planejamento que não apenas reaja aos *curtailments*, mas que os previna de forma definitiva.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE
Facebook
X
LinkedIn
WhatsApp

Área de comentários

Seus comentários são moderados para serem aprovados ou não!
Alguns termos não são aceitos: Palavras de baixo calão, ofensas de qualquer natureza e proselitismo político.

Os comentários e atividades são vistos por MILHÕES DE PESSOAS, então aproveite esta janela de oportunidades e faça sua contribuição de forma construtiva.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ASSINE NOSSO INFORMATIVO

Inscreva-se para receber conteúdo exclusivo em seu e-mail, todas as semanas.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Arrendamento de Usina Solar

ARRENDAMENTO DE USINAS

Parceria que entrega resultado. Oportunidade para donos de usinas arrendarem seus ativos e, assim, não se preocuparem com conversão e gestão de clientes.

Locação de Kit Solar

ASSINE NOSSO INFORMATIVO

Inscreva-se para receber conteúdo exclusivo em seu e-mail, todas as semanas.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade NoBeta

Comunidade Energia Limpa Whatsapp.

Participe da nossa comunidade sustentável de energia limpa. E receba na palma da mão as notícias do mercado solar e também nossas soluções energéticas para economizar na conta de luz. ⚡☀

Siga a gente

Últimas Notícias

Energia Solar por Assinatura